O dia a dia do medievo em imagens

Abe Deo Vincit 


Paulo Edmundo Vieira Marques, professor, historiador e escritor medievalista. Especialista em estudos do século XV. Aluno graduado pela PUCRS,  Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, com láurea acadêmica. Palestrante de qualquer contexto histórico medieval. Estudioso da temática cotidiana medieval. Pesquisador das artes medievais principalmente do gótico e das transformações na pintura renascentista.


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Os Livros das Horas - Tradução Google Tradutor

Sobre manuscritos medievais

Interessante. Pode-se ter uma ideia a respeito dos Books Of Hours Medieval, logicamente para principiantes.


Manuscrito medieval

O Livro de Horas medieval evoluíram a partir do ciclo de oração monástica que dividiu o dia em oito segmentos, ou "horas": Matinas, Laudes, Prime, Terce, Sext, Nones, Completas, e Vésperas. No início do século XV, o formato do Livro de Horas tinha desenvolvido para satisfazer as exigências dos privados, ao contrário de devoção, comum. Estes livros portáteis são menores em formato de seus antepassados ​​monásticas, projetadas para uso por indivíduos, com um sistema litúrgica um pouco menos complicada do que a liturgia monástica e mais "user-friendly".Um Livro de Horas invariavelmente começa com um calendário litúrgico, listando dias de festa em ordem cronológica juntamente com um método complicado de calcular a data da Páscoa. A sete Salmos Penitenciais são geralmente incluídas, bem como, e mais orações (dedicada aos santos particulares ou questões pessoais), de acordo com os desejos e necessidades do proprietário.

Em Livros de Horas são preservadas algumas das melhores obras de arte medieval. Cada seção do manuscrito começa tradicionalmente com uma miniatura iluminado que complementa as orações, para estimular a contemplação e meditação do leitor. Porque eles eram caros e obras de arte espectaculares, a posse desses manuscritos era limitado principalmente a nobreza, realeza e os muito ricos. Eles são muitas vezes adornado com brasões de armas, e retratos de clientes às vezes podem ser encontrados dentro das miniaturas. Como sua popularidade aumentou, de um sistema eficiente de produção de livros e comércio desenvolvido para corresponder à demanda de Livros de Horas.Escreventes profissionais produziu os textos em um único local, as miniaturas foram pintados em oficinas de artistas, e os dois reuniram no salão de encadernador de. Patronos poderia escolher os textos e miniaturas que queriam, ou adquirir manuscritos completos, genéricos em lojas de papelarias "livro. Uma economia próspera desenvolvido em torno da produção de livros de horas, especialmente em centros como Paris, Bruges e Utrecht.

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O que é um manuscrito iluminado?

Um manuscrito iluminado é um livro escrito e decorado a mão. Seu nome é derivado do latim que significa mão e manus "scriptus" escrita significado. Manuscritos que foram decoradas com ouro, prata ou pintura brilhante são chamados iluminado, a partir do "illuminare" em latim que significa para clarear ou iluminar.

Um grande número de manuscritos são cobertos com ornamentos pintados que podem ser apresentados sob várias formas: 
* iniciais dos capítulos ou parágrafos, ornamentados por vezes de forma muito simples, às vezes, por outro lado com uma grande profusão de interlacings, folhagens e flores, estes são desenvolvidos em toda a extensão da página e dentro são às vezes descritos pessoas ou cenas da vida quotidiana; 
* pinturas na margem, em que alguma cena é realizada em várias páginas; 
* fronteiras em todo o texto (colunatas de entrelaçar, etc), a maioria da exemplo notável é o dos cânones evangelísticas da Idade Média; 
* de página inteira pinturas (ou, como cobrir apenas uma parte da página), mas formando imagens reais, semelhantes aos afrescos ou imagens de cavalete, estes são encontrados principalmente em muito antiga ou manuscritos muito recentes (décimo quarto e décimo quinto séculos);
 

 

Como foram manuscritos iluminados feito?

Durante o período medieval, livros foram escritos e decorados em pergaminho, um tipo de pele de animal. A maioria pergaminho veio de peles de vaca, que foram preparadas através de um processo elaborado que envolveu a imersão, raspagem, secagem e tratamento das peles. O pergaminho melhor qualidade, conhecida por seu caráter fino e maleável, foi chamado de pergaminho. Uma vez que o número necessário de peles de vitela foram preparadas e cortadas para o tamanho das páginas, que foram, em seguida, ao longo de ambas as margens marcado com furos pequenos. Usando esses buracos como um guia, linhas foram, então, inscrito ou desenhado na página para criar o layout para os escribas e decoradores.

Após isso, um calígrafo ou escriba iria escrever sobre o pergaminho com uma palheta ou caneta de pena pena. No início da Idade Média, as melhores penas vieram de diversas variedades de gansos encontrados na costa ou a Inglaterra. O escriba utilizada uma tinta derivado ou fuligem de carbono ou nozes na vesícula. Em um método, fuligem de carbono a partir de velas de cera de abelha ou lâmpadas de óleo de linhaça foi combinado com a goma arábica para produzir uma tinta indelével preta. Nos outros frutos secos, gall, os nódulos inchados produzidos por certos insectos que vivem em carvalhos, foi misturado com sais de ferro, fazer uma tinta que eventualmente tornou-se castanha a partir de exposição à atmosfera.

Enquanto o corpo principal do texto era geralmente escrito em tinta preta ou marrom, linhas coloridas de escrita, chamados rubricas (do latim Rubrica significado vermelho), foram mais frequentemente, mas não sempre, escrito em vermelho. Rubricas serviram como guias de instrução para o leitor, oferecendo títulos descritivos e marcação divisões no texto.Ao invés de escrever obras originais espontaneamente para a página, os escribas medievais, mais frequentemente do que não, copiado o seu trabalho a partir de textos modelo, exemplos chamados. Quando o texto foi concluído, o manuscrito foi decorado ou iluminado nos espaços em branco, o escriba tinha intencionalmente deixadas para o iluminador.Consulte nosso estoque de manuscritos medievais para a venda .

 

Como foram manuscritos iluminados decorado?

Manuscrito medieval

O iluminador, que era um especialista distinto do escriba, tinha um repertório de motivos visuais que ele ou ela empregadas para decorar o manuscrito de acordo com a natureza do texto e da despesa da comissão. Cartas que começaram novos capítulos ou passagens importantes no livro poderia ser decorado ou historiada. Letras decoradas foram embelezados com desenhos geométricos, foliate, e zoomórficos, ou com elementos mistos de todos os três. Iniciais historiadas, derivando seu nome do "ystoire" francês, serviu como quadros que fechados figural pequeno ou cenas narrativas.

Para animar ainda mais o texto, as margens da página foram muitas vezes adornado com bordas decoradas. A decoração variou de desenhos pequenos de um bizarro personagem, conhecido como "drolleries", para elaboradamente pintados padrões florais de enchimento de toda a fronteira. Em alguns casos, pequenas cenas foram incorporadas na borda em forma de medalhões chamado rodelas ou painéis rectangulares na margem inferior conhecido pelo seu termo francês, bas de página.

Para as comissões mais caros, pinturas conhecidas como miniaturas foram muitas vezes incluído no programa decorativo. Miniatures são nomeados não para o seu tamanho pequeno, mas a partir da palavra latina "minum", que é um pigmento vermelho utilizado na tinta. Miniaturas aumentou a beleza do livro com a narrativa e cenas simbólicas. Suas funções variou de ilustrar o texto e dividir o livro em seções, de servir como ícones devocionais e ajudas ao estudo e à oração. Dentro deste contexto, uma gama diversificada de estilos regionais e pessoal desenvolvido, tornando cada manuscrito original em estilo e conteúdo.

A tinta utilizada para decorar manuscritos e miniaturas de pintura veio de uma variedade de fontes, incluindo metais oxidados, bem como de matérias vegetais e animais em uma base de têmpera. Vermilion foi feito de mercúrio e enxofre, enquanto azul ultramarino, um pigmento tão caro como o ouro, foi feita a partir de esmagamento lápis-lazúli, uma pedra semi-preciosa importada do Afeganistão durante a Idade Média. Materiais eram muito caros, e, por vezes, substitutos de ouro real foram utilizados.

Antes do século XIII, manuscritos medievais foram inicialmente produzidas em mosteiros por monges trabalham no scriptorium, ou escrever sala onde os livros eram feitos. Mais de 500 mosteiros existia só na Inglaterra por volta do século XII, e uma biblioteca monástica típico pode possuir mais de 300 livros em sua biblioteca. Até o início do século XIII, o crescimento das cidades e do estabelecimento de universidades de Paris, Oxford, Bolonha e levou ao surgimento de escribas seculares e artistas que serviram alunos e professores, bem como a nobreza.

Mais tarde, no século XIV, um aumento da alfabetização e do desenvolvimento de uma classe média-alta criado uma grande demanda de manuscritos iluminados. A produção de manuscritos iluminados de livros de orações para devoções pessoais, chamados Livros de Horas, aumentou dramaticamente.

LIVRO DE HORAS., A estigmatização de São Francisco de Assis.  [Miniatura do Livro de Horas, no Sufrágio dos Santos]., Antigo mapa, mapas antigos Mestre de Jean Rolin II, em miniatura de Maria, Josef e recém-nascido Cristo., Antigo mapa, mapas antigos LIVRO DE HORAS FRANCISCANA, USO DE ROMA., Miniatura do rei Davi ajoelhada e olhando para o céu., Antigo mapa, mapas antigos Livro de Horas, Folha de pergaminho, com miniatura grande de casar e de Cristo., Antigo mapa, mapas antigos Brevier Folha, em pergaminho de um Brevier manuscrito., Antigo mapa, mapas antigos Brevier Folha, em pergaminho de um Brevier manuscrito., Antigo mapa, mapas antigos

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Pinta
paleta O artista medieval era surpreendentemente ampla. Para além das substâncias enumeradas abaixo, improvável que soam substâncias, tais como a urina e cera foram usados ​​para preparar os pigmentos. Colour Fonte (s) Vermelho Mercury sulfeto (II) (HgS), muitas vezes chamado de cinábrio ou vermelhão, na sua forma mineral natural ou sintetizado; "fio vermelho" ou minium (Pb3O4); inseto baseados cores como cochonilha, kermes e lac; ferrugem (óxido de ferro, Fe2O3) ou compostos de óxido de ferro ricos terraamarelo à base de plantas, tais como cores Weld, açafrão ou açafrão, amarelo cores de terra (ocre); orpiment (sulfeto de arsênico, As2S3) verde à base de plantas compostos como bagas espinheiro, compostos de cobre, como verdete e malaquita azul Ultramarine (feito a partir do lápis-lazúli rocha) ou azurita; smalt; planta- substâncias à base, como pastel, índigo e folium ou turnsole Branco chumbo branco (também chamado de "floco branco", carbonato básico de chumbo (PbCO3)); giz Carbon Black , de fontes como lampblack, carvão, ou ossos queimados ou marfim; sépia , ferro e fel Ouro Ouro, em forma de folha (martelado extremamente fina) ou em pó e encadernada em goma arábica ou ovo (chamado de "casca de ouro") Prata Prata








 

Como adquirir manuscritos de valor?

Medieval e renascentista manuscritos iluminados nunca foram sem valor substancial. Por causa de sua beleza impressionante e grande fascínio, muitos foram considerados tesouros a partir do momento de sua criação até os dias atuais. Nos inventários de reis e duques que encomendou eles, manuscritos foram listados entre seus objetos mais preciosos com muito cuidado. Muitos manuscritos iluminados foram feitas para ou coletadas por homens mais poderosos do mundo e as mulheres, que possuíam gosto caro e refinado.

Quase dez séculos atrás, ricamente iluminados manuscritos bíblicos ou de livros tesouro foram feitas para os imperadores carolíngios e Otoniana da Alemanha. Estes Evangelhos iluminados contados entre os itens mais valiosos do tesouro imperial, onde foram armazenadas e exibidas com outro tesouro para proclamar a riqueza e status do proprietário. Não é por acaso que um tal livro, os Evangelhos de Henrique, o Leão, vendido a casa Sotheby leilão em 1983 para quase 12 milhões de dólares -. O preço mais alto já pago por uma obra de arte na época Veja nosso estoque de manuscritos medievais para venda .

Gerações posteriores da realeza medieval, especialmente na França, comissionados e coletou uma série de manuscritos iluminados. Entre os maiores dos bibliófilos medievais eram Jean, duque de Berry, e Carlos, o Temerário, duque de Borgonha. As bibliotecas que eles formados tornaram-se lendárias, e seu conteúdo constituem hoje o núcleo de muitas das maiores instituições do mundo.

Para o coletor moderno, manuscritos iluminados representam os melhores exemplos da pintura ocidental desde o período medieval Sua qualidade jóia-como inspira uma paixão que transcende o tempo. Tais figuras notáveis ​​como John Pierpont Morgan, Huntington Collis, Walters Henry, Robert Lehman, e João Paulo Getty Jr. Será que todos avidamente colecionado importantes manuscritos medievais e renascentistas e miniaturas.

Manuscrito medieval

Hoje, os manuscritos são recolhidos em forma de livros completos, conhecidos como códices, e como as folhas individuais (páginas individuais) e estacas (recorte de partes de páginas). Exemplos de alta qualidade são raros e de valor considerável. A coleta de folhas individuais e estacas remonta pelo menos ao século XVIII, quando muitas miniaturas foram separadas de seus textos a serem apreciados e exibidos de forma independente como pequenas obras de arte de colecionadores famosos de pinturas e desenhos. Na Inglaterra, um imposto de importação de livros por peso incentivou a destruição por atacado de muitas grandes pesados ​​manuscritos italianos, a partir do qual as iniciais iluminadas foram cortadas.

Manuscritos iluminados reter significado hoje, não só por seu grande apelo estético, mas também pela sua profundidade como sofisticados objetos culturais que podem ser apreciadas em uma grande variedade de formas. Como desenhos grandes, manuscritos iluminados representam alguns dos melhores produção artística do período medieval em seu estado original não restaurado. Isto está em contraste com os painéis de pinturas mesmo tempo que têm sido muitas vezes fortemente restaurada e custar várias ordens de grandeza mais do que manuscritos. Mesmo peças textuais com pintura mínimo são altamente valorizados como alguns dos melhores exemplos da arte declínio da caligrafia. Histórias da venda e compra de grandes manuscritos estão entre os mais colorido e lendária na história dos quartos do mundo de leilões mais famosas.

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Glossário

Acanthus - Um tipo de planta frondosa comumente retratada em fronteiras foliares.

Antiphonal - O livro que contém a música diretor cantada pelo coro durante o Ofício Divino.

Bifolium - Um pedaço de pergaminho, que é dobrada para criar duas folhas.

Encadernação - pele animal, pano ou metal cobrindo as placas de madeira que são costuradas com as folhas de pergaminho na espinha.

Livro de Horas - Um tipo muito popular de texto durante a Idade Média utilizados para devoções particulares. Ele contém um calendário, bem como salmos, orações, hinos e leituras bíblicas para recitação durante as oito horas canônicas do dia, conhecidas como as Horas da Virgem.

Fronteira - A margem em torno do texto, que muitas vezes é iluminado com desenhos foliate

Breviário - Um livro litúrgico utilizado para a celebração do Ofício Divino.

Livros Coro - O termo geral para os cadernos de serviços contendo a música cantada pelo coro, por exemplo, antiphonal e gradual.

Codex - Uma coleção de páginas escritas costuradas ao longo de uma borda, a forma de livro ainda em uso hoje.

Corte - Uma seção de uma folha, muitas vezes contendo as iniciais iluminadas que foram cortados a partir de um manuscrito.

Inicial decorada - A inicial pintado com desenhos geométricos ou naturalistas. Veja também Historiated inicial, habitada inicial inicial e Zoomorphic.

Folio - Uma folha de um manuscrito que é numerada em apenas um lado, geralmente o recto.

Mão Livro - Um tipo de roteiro comum em muitos manuscritos medievais dos séculos 14 e 15 que consiste em formas de letras retangulares.

Horas da Virgem - O texto principal do Livro de Horas contendo leitura e devoção à Virgem Maria. As oito horas são Matinas, Laudes, Prime, Terce, Sext, Nenhum, Vésperas e Completas.

Script humanista - Um tipo de roteiro que lembra da escrita esculpida clássica, conhecida pela sua clareza.

Habitado Inicial - Uma primeira iluminado que contém uma figura humana ou animal.

Folha - Uma única página de um manuscrito. A superfície frontal, que aparece no lado direito de uma abertura de duas páginas, é chamado o recto, e a superfície posterior, que aparece no lado esquerdo é chamado o verso. As folhas são mais frequentemente escritos em pergaminho.

Miniatura - Uma pintura independente em um manuscrito que geralmente ilustra o texto. O nome deriva não do seu tamanho relativamente pequeno, mas a partir do minum palavra latina, que é um pigmento vermelho utilizado na tinta.

Missal - O livro de serviço que contém os textos necessários para a recitação da missa na liturgia cristã

Pergaminho - O material peles forma derivada de animais sobre os quais manuscritos mais ocidentais foram escritas antes do século 15.

Saltério - O Livro dos Salmos, com um calendário e textos devocionais outros utilizados na liturgia cristã e para devoções particulares.

Rinceaux - Um tipo de decoração hera bem ramificada freqüentemente usada em decoração fronteira.

Roundel - Uma pintura narrativa rodada contido dentro da fronteira.

Rubrica - Linhas coloridas de escrita (do latim Rubrica significado vermelho), eram na maioria das vezes, mas nem sempre escrito em vermelho e serviram como guias de instrução para o leitor, oferecendo títulos descritivos e marcação divisões no texto.

Scriptorium - O lugar em mosteiros e igrejas onde os manuscritos foram feitas.

Velino - Um tipo muito fino de pergaminho conhecido por seu caráter flexível.

Versal - A letra alargada primeiro de uma palavra que marca o começo de uma secção de texto

Zoomorphic inicial - Um iluminado inicial composta de formas animais.






























                                                               














































































      

 














































































                                                         







Uma indagação se impõe com referência à escolha do contexto temporal e temático deste estudo e pesquisa de imagens e artigos para a internet, que é a seguinte: Qual o sentido em estudar o Ocidente medieval, uma sociedade tão longínqua no tempo e no espaço, a partir das terras americanas e, em particular, brasileiras? Argumenta-se que: como já se viu, nas pesquisas e estudos de vários historiadores renomados, a Baixa Idade Média, continuou caracterizada pelas estruturas fundamentais de dois séculos anteriores. Encontraram-se nela os mesmos grupos dominantes principais e os mesmos grupos dominados; a Igreja continuou sendo a instituição hegemônica, enquanto prosseguiu o desenvolvimento do mundo urbano e o reforço dos poderes monárquicos. A conquista e colonização da América não é o resultado de um mundo novo, nascido de uma decomposição e agonia da Idade Média. Muito além das transformações, das crises e dos obstáculos, é a sociedade feudal, prosseguindo a trajetória observada desde o início do segundo milênio, que empurra a Europa para o mar. É uma Europa ainda dominada por longo tempo pela lógica feudal, com seus protagonistas principais, a Igreja, a monarquia e a aristocracia (mercadores), a riqueza crescente dos burgueses, que finca o pé na América, e não uma Europa saída transfigurada da crise do fim da Idade Média e agora portadora das luzes do Renascimento e Humanismo. A América foi conquistada, não creditando aos seus autores a mentalidade americana, mas provavelmente aos seus valores e a lógica de seus comportamentos provenientes de um contexto medieval. Diante disto, complementando e ratificando a importância dos estudos medievais a partir de um olhar sul americano e brasileiro.


Madonna e a Criança, metade do século XV, de Benozzo Gozzoli, Florença, Itália. A sutileza do belo em harmonia com a devoção. A beleza das pinturas entrelaçadas com o imaginário e cotidiano. Benozzo di Lese di Sandro, discípulo de Fra Angélico. (1420-1497). 



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Orgulho e Satisfação

My book is coming. I notice the launch day for everyone. This beautiful. Ahh and great content. I note that the book is being finished, as it will be even better. Check out future course reading it. Soon also translated into English and spanish.


Meu l
ivro esta chegando. Eu aviso o dia do lançamento para todo o mundo. Esta bonito. Ahh e um ótimo conteúdo. Observo que o livro esta em fase de acabamento, pois ficará ainda melhor. Confiram futuramente, lendo-o é claro. Brevemente também traduzido para o inglês e o espanhol.





Idade dos Anjos



Toda a história da Idade Média esta exposta nas suas ilustrações, nas suas iluminuras. Observe atentamente aos detalhes fornecidos pelos traços dos pintores, iluminadores, escribas medievais.  Ansiosos, ousados e talentosos, eles nos deixaram um legado para que buscássemos entender, nas suas obras, o que viria pela frente, no futuro. O passado estava contado, mas também nos deixaram muitas perguntas ainda a serem pesquisadas e decifradas. É preciso que busquemos essas respostas para não decepcioná-los. Só se faz isso através da paixão, da capacitação e da observação. Precisamos, em outras palavras, resumindo, de sensibilidade. Poucos a possuem e os que têm o privilégio de usufruí-la necessitam exercitá-la. Idade das Trevas, que nada, Idade dos Anjos. De dificuldades, talvez, mas todos os períodos históricos tiveram e nunca deixarão de ter. A singularidade esta nas mensagens. As imagens medievais nos disseram como foi no passado e como deveremos agir no futuro. Como proceder? Somente observe os manuscritos, as iluminuras, os livros das horas, as pinturas e deixe seu imaginário funcionar. Benditos segredos e incógnitas que deixam o presente inquieto para decifrar o medievo. Pois, “a pessoa é a última solidão do ser”.

Paulo Edmundo Vieira Marques


Decifrando Iluminuras

A Construção de Veneza, Sycambria, Cartágo e Roma. Master of the Geneva Latini Jean de Courcy, Chronicle of the Bouquechardière, Rouen, ca. 1450-1475-BL. Harley Ms.4376,fl.150


Quando vislumbramos uma iluminura, nem imaginamos os mistérios que essas belezas contêm. Os iluminadores eram sagazes artistas, e deixavam para futuros pesquisadores e observadores analisarem e decifrar seus segredos. Provavelmente cada um tenha a sua interpretação sobre as mesmas. A minha e de outros historiadores sobre a iluminura acima é a seguinte: esta Iluminura retrata uma história francesa do mundo. Documenta a construção de quatro grandes cidades do Império Romano e de como seus fundadores lendários as veem.


O colorido brilhante e a fantasia artística dos edifícios revelam as qualidades e o conhecimento que o iluminador teve em descrever esta cena. Em vez de tentar recriar a aparência atual desses lugares e sua arquitetura, ele utiliza as formas da arquitetura gótica europeia do Norte a partir de sua visão. Talvez nem conhecesse essas cidades, mas através, possivelmente, de relatos de contos, de lendas e de outros manuscritos e iluminuras, ele, no seu imaginário, desenha e ilustra as representações de quatro cidades que foram muito importantes, vide anotação abaixo sobre Sycambria, no Império Romano.


A beleza das iluminuras é indiscutível, mas em seus traços há sempre alguma descoberta a ser feita. *Sycambria, a cidade mistérios dos germanos, deveria ser mais bem estudada e explorada. Conhecemos as outras cidades, mas a iluminura acima nos diz que devemos nos infiltrar nos conteúdos artísticos dos iluminadores, pois nos conta a história medieval e, por conseguinte o posterior, o futuro.

 

  

*Um trabalho anônimo de 727 chamado Liber Historiae Fracorum afirma que após a queda de Tróia, 12.000 troianos liderados por chefes de Príamo e Antenor se mudaram para perto do rio Tanais, estabelecendo-se na Pannonia ao lado do Mar de Azov, e ali fundaram uma cidade chamada Sycambria. Uma variação dessa história também pode ser lida nos inúmeros manuscritos medievais, que citam tal cidade frequentemente, principalmente na literatura de contos de feitos heroicos de cavaleiros.

Historiadores, incluindo testemunhas oculares como César, deram-nos respostas concretas sobre Sycambria, situada no delta do rio Reno. Os arqueólogos confirmaram o assentamento permanente de povos naquela localização. O lado mítico de Sycambria surge fortemente, como uma cidade cheia de mistérios, a partir dos francos, incluindo-a em uma geografia incorreta a dos arqueólogos. Alguns estudos recentes de historiadores como; Ian Wood e Wallace-Hadrill, rejeitam a cidade como uma lenda-histórica. Mas durante a Idade Média Sycambria, para os medievos, foi uma cidade germânica repleta de histórias fantásticas e dignas de serem citadas em vários manuscritos e iluminuras medievais em virtude de sua singularidade.

 Professor Paulo Edmundo Vieira Marques

 

Carros e Vagões Medievais

Manuscrito Bodleian Library, século XIV, vagão para transporte de armas, soldados e até cadáveres. O vagão de guerra.
 

Quando, na História, apareceram os transportes como, carretas (veículos de duas rodas) e vagões (veículos de quatro rodas) foram de extrema importância para os homens, para o comércio, para as trocas enfim, com a comunicação com outras pessoas. A sua eficiência com relação aos animais usados sem uma tecnologia de transporte, foi enorme, inexplicável. O historiador Jeffrey L. Singman escreve que uma carroça de quatro rodas com um par de cavalos poderia transportar mais de 1.200 Kg. por cerca de 30 km por dia. Os carros mais antigos, de transportes de homens e mercadorias, usados de forma razoável, foram os trenós usados entre 6.500 e 7.000 a.C. pelas tribos nativas da Europa Central e Oriental.

A ascensão do transporte sobre rodas, em torno de 3000-5000 a.C. teve início em lugares onde existiam fontes suficientes de madeira e aonde a tecnologia do seu corte era existente e avançada no que concerne a sua confecção e moldagem no formato de rodas. Inicialmente, as rodas eram sólidas em vez de raiadas. As rodas eram em forma de peças planas de madeira. As rodas poderiam ser um pedaço sólido de madeira, também poderiam ser encaixadas a partir de duas ou três peças, dependendo do tamanho da árvore original e o tamanho da roda final que se desejasse ao final do trabalho. Apenas ferramentas básicas, como um machado eram necessárias para produzir rodas de certa qualidade e durabilidade. A roda ou o eixo (na forma de toras, colocadas sob um objeto pesado para ajudar a rolá-los) foi a primeira atitude tomada pelo homem para confeccionar um transporte para levar cargas ou pessoas. Ainda hoje isso é objeto de discussão dos pesquisadores. No entanto, a combinação das duas rodas unidas por um eixo se mostrou extremamente eficiente. Os primeiros projetos fixaram os eixos com as rodas, lubrificadas por óleos animais*, que giravam sobre eles, proporcionando menos atrito do transporte sobre o solo.


Manuscrito século XIV, Morgan Library, o carro de bois a direita acima no auxílio à construção de igrejas.


Bandas de ferro, substituição e colocação de revestimentos de couro, introduzidos ao redor das rodas melhorou a longevidade da madeira. O transporte, a locomoção de animais e carroças puxadas por bois eram comuns no Egito, Grécia e Roma. Este meio, também, por muito tempo, foi usado na Idade Média. A grande alteração, no entanto, foi que o prestígio dos carros de bois diminuiu, seriam usados pelos camponeses em longa escala, para todo o tipo de afazeres no campo. Na cidade, nas classes menos favorecidas também foi de grande utilidade. Auxiliando ferreiros, comerciantes monges entre outros.  A nobreza medieval e a realeza viraram-se para os cavalos para puxarem os seus carros. Geralmente cavalos de uma raça de grande porte, fortes e robustos para a sustentação de um transporte que requeria muita força. Por muito tempo a maioria da sociedade medieval confiou seu transporte aos bois e eles fizeram um trabalho admirável, dando sustentação para o progresso do comércio da Europa Central. Mas a população acabaria cedendo aos cavalos, aos animais de potência como eram chamados. Sua maleabilidade e rapidez influenciaram enormemente a escolha geral do povo medieval que se locomovia que batalhava levando armamento para as inúmeras guerras e que  principalmente comercializava.

O uso de carros e vagões na era medieval, como o historiador John Langdon diz: assumiu um papel importantíssimo na difusão de todo o espectro econômico do mundo medieval. A diferença do transporte fez a diferença para o progresso europeu medieval. Antes do século XII, as carroças, a maioria era puxada de arrasto pesado feito por bois.


Manuscrito do século XIII, Morgan Library, 0 vagão no incremento comercial e das trocas.

Após este período, os cavalos tornaram-se os animais de serviço dominante.  O interruptor de potência, no entanto, necessitava uma redução no tamanho e capacidade para a sua flexibilização e manuseio. Carros puxados a cavalo tinham cerca da metade da capacidade daqueles puxados por bois. 

No caso de uma carga especial, especialmente pesada, como madeira ou carvão, os bois predominaram no transporte de carros e vagões. Veículos com cavalos e bois tiveram, na sua maior parte, duas rodas. Os vagões medievais, tão lembrados e vistos em filmes e livros, preferencialmente de quatro rodas, eram reservados para o transporte rodoviário, via florestas. Seguidamente assaltados por bandoleiros, ficaram famosos em cenas de filmes. Transportavam de tudo, na maioria das vezes alimentos, mas por ter a possibilidade de se esconder dentro deles, também era a morada preferida de alquimistas e bruxas. Lenda ou não foram muito usados por médicos e curandeiros medievais. Era pau para toda a obra, ou a Kombi daquela época, assim se poderiam resumir os famosos vagões.


Vagão medieval para a utilização de profissões como médicos, comerciantes, alquimistas etc.

O problema do transporte de quatro rodas foi que, apesar de eixos com giro frontal terem sido inventados por volta de 500 A.C., a tecnologia não se expandiu, foi lenta e demorada. Logo no início do período medieval, o giro frontal de eixo não existia, tornando-se quase impossível controlar o animal. O exercício para mantê-lo requeria grande força e destreza. A mudança ocorreu depois de cerca de 800 anos, pelo menos na Europa Central. Sem dúvida, uma demora demasiada para uma mudança tecnológica mais avançada, o que nos leva a conclusões de que as repetidas invasões bárbaras estagnaram melhores inovações nas regiões afetadas pelos choques. Vagões com eixos de giro não seria comum na Inglaterra até o século XVII. Dirigir carros ou vagões medievais foi uma experiência muito instável e dolorosa, era um sacrifício qualquer tipo de viagem, e a maioria delas eram longas naquele período, porque os veículos não tinham suspensão ou qualquer tipo de amortecimento, pelo menos até o século XIV, quando algumas suspensões em vagões de transporte, feitas com molas de ferro foram introduzidas no Flandres, atuais Países Baixos.

Um transporte, um carrinho que pouco se fala e se escreve sobre ele, é o carrinho de mão. Usado especificamente para o transporte de mercadorias como alimentos, ferramentas etc., foi um aliado muito importante para o homem no medievo. O carrinho de mão é de origem medieval e não tem nenhum antecessor romano. Ele, também, foi o único veículo que era empurrado em vez de ser puxado. As iluminuras, as representações e textos de manuscritos datam do século XIII, mas a sua tecnologia, sem dúvida antecede a essas fontes.

 

 * Eram usados para facilitar a locomoção do transporte banha de porco, óleo de peixe, de oliva entre outros e de variações distintas. Conta-se na Idade Média, século XI, em Bruges até mel se usava para tal fim. Nas Cruzadas o óleo preferencial para o transporte das tropas era o de javali, por ser espesso, mas de excelente viscosidade e penetração nos eixos e  extremamente duradouro. 


Réplica de um vagão medieval para transporte de doentes e feridos.

Professor Paulo Edmundo Vieira Marques



Medieval Tournaments - Século XIV - BNF Fla. 89.



A Investidura de um Príncipe no Século XII

Manuscrito século XII. Investidura príncipe, o saber e o conhecimento. BNF. Fla.43.


Eis tal como é contada nas Chroniques des comtes d"Anjou et des seigneurs d'Amboise, a investidura de Geoffroy Plantageneta no Pentecostes, a 10 de junho de 1128, em Roen.

Espero que com essa pesquisa e análise, eu tenha a possibilitado de auxiliar o meu amigo e escritor Sergio Gallina em suas peregrinações investigativas sobre esse período para a confecção de sua próxima obra.


"Ao nascer do dia, segundo o costume relativo à recepção dos novos cavaleiros, preparou-se um banho. Quando o rei (da Inglaterra) soube pelo seu camareiro que Angevin e os que tinham vindo com ele haviam terminado as suas abluções* , mandou-os ir à sua presença. Após ter lavado o corpo e saído do lugar da ablução, o nobre descendente do conde de Anjou foi vestido com uma camisa de linho; por cima levou um traje tecido a ouro e uma cota curta cor de púrpura. Vestiu calções de seda e calçou sapatos com imagens de pequenos leões de ouro, inclusive no salto. Os seus companheiros, que esperavam receber com ele a cavalaria, estavam todos igualmente vestidos de linho e púrpura. Assim enfeitados, produzidos com tais adornos, aliando a brancura do lírio à púrpura da rosa, o futuro genro do rei (da Inglaterra) abandonou os seus aposentos privados e surgiu em público, junto com a sua nobre companhia. Foi então que trouxeram os cavalos e as armas; entregaram-nos a cada um, segundo as suas necessidades. A Angevin, entregaram um magnífico cavalo da Espanha, tão rápido, dizia-se, que ultrapassava amplamente na corrida os pássaros voando. Revestiram-no de uma incomparável de malha dupla, que nenhum golpe de lança ou dardo podia trespassar. Vestiram-lhe também calções de dupla malha de ferro. Ajustaram-lhe as esporas de ouro; penduram-lhe ao pescoço um escudo pintado dom dois pequeninos leões de ouro; na cabeça colocaram-lhe um capacete brilhante com numerosas pedras preciosas, tão bem temperado que nenhuma espada podia furá-lo ou amolgá-lo. deram-lhe uma lança de freixo**, com ponta de ferro do Poitou. Finalmente, entregaram-lhe uma espada retirada do tesouro real, com a marca antiga do famoso ferreiro Véland, que outrora a forjara com grande cuidado através de múltiplas operações e zelo. Assim armado, o nosso cavaleiro, que cedo viria a ser a flor da cavalaria, monta a cavalo com uma agilidade extrema. Que mais dizer? Nesse dia, em honra dos novos cavaleiros e em alegria, passou-se todo o tempo em exercícios guerreiros; o regozijo em honra dos novos recrutas duraram sete dias inteiros no palácio real".



*Purificação pela lavagem de todo o corpo ou parte dele. As abluções parecem ser quase tão antigas quanto a própria adoração exterior. Moisés as ordenou, os pagãos as adotaram, e Maomé e seus seguidores fizeram que elas perdurassem: dessa forma elas têm sido introduzidas entre muitas nações, e compõem uma parte considerável de todas as religiões supersticiosas. Os sacerdotes egípcios tinham suas abluções diurnas e noturnas; os gregos, suas aspersões; os romanos, suas purificações e lavagens; os judeus, sua limpeza de mãos e pés, além de seus batismos; os antigos cristãos praticavam a ablução antes da comunhão, o que a igreja romana ainda conserva antes da missa, algumas vezes depois; os sírios, coptas, etc., têm suas lavagens solenes na sexta-feira da Paixão; os turcos, suas abluções mais e menos importantes, etc.

A purificação, entre os romanos, era uma cerimônia solene pela qual eles purificavam suas cidades, campos, exércitos ou o povo, depois de qualquer crime ou impureza. As purificações poderiam ser realizadas por fogo, enxofre, água ou ar; o último era aplicado por ventilação, ou abanava-se aquilo que seria purificado. Todas as classes de pessoas, com exceção dos escravos, poderiam realizar algum tipo de purificação. Quando uma pessoa morria, a casa devia ser limpada de uma maneira específica; pessoas recém casadas eram aspergidas com água, pelo sacerdote. As pessoas, algumas vezes, em suas purificações, corriam nuas várias vezes pelas ruas. Raramente havia algum ato realizado que no começo e final do qual alguma cerimônia não era exigida para purificarem-se e acalmarem os deuses.


**O freixo (Fraxinus excelsior) é uma árvore da família das Oleáceas, a mesma família a que pertence a oliveira.


 

O Livro dos Príncipes, Bodleian Library- Manuscripts. Séc. XIV

Professor Paulo Edmundo Vieira Marques




A Dança Medieval

Dançar na Idade Média era uma prática muito reservada. A Igreja tinha sérias imposições na sua liberação. Inicialmente não aprovou de maneira nenhuma, principalmente durante os séculos V, VII e VIII. Posteriormente e eventualmente, ela a igreja, fez aprovar algumas danças e foi incentivando e colocando alguns instrumentos musicais nos sermões religiosos. Mas a nobreza exigia uma flexibilização das normas rígidas da igreja a respeito do ato de dançar, que a mesma considerava ofensiva aos costumes. Os nobres queriam celebrar, vitórias em batalhas, casamentos, investiduras e a maneira mais alegre que lhes convinha, era dançar. A Igreja cedeu.

 

São raras as fontes a respeito da dança na Idade Média. A compreensão de como dançavam no medievo é limitada e fragmentária em virtude poucas informações e pesquisas a respeito da temática. Algumas representações através de pinturas e iluminuras nos fornecem dados interessantes de como se dançava e quais instrumentos musicais se utilizava para a prática, mas são escassos. Nos textos. Também de forma dispersa, se tem alguma ideia de como se dançava no período medieval.  As primeiras descrições detalhadas da dança na Idade Média surgiram, apenas, e mais precisamente em Florença, Itália, segundo alguns historiadores, a partir de 1450 na Itália, depois do início do Renascimento. 


 Os principais instrumentos utilizados nas danças medievais foram os tambores e os alaúdes fundos. Algumas músicas incluíam, também, sinos, tambores longos, os nakers, ou nakir, um pequeno tambor de origem árabe, tambores laterais, os tabors, utilizavam pandeiros e tímpanos, também conhecidos como tambores chaleiras.


 As danças medievais tiveram um papel importantíssimo na cultura da Europa Medieval, apesar da variedade e tipos de danças encontradas em várias localidades, cada uma delas realçou e ressaltou suas raízes à sociedade medieval com particularidades regionais.


 Creio que as pesquisas devam prosseguir com maior intensidade a respeito do assunto, pois a temática é rica e preponderante para entendermos melhor o cotidiano medieval, apesar das variações e circunstâncias das danças e as sua múltiplas adaptações vale a pena estudar e e elaborar um trabalho de maior conteúdo.


Manuscrito século XV, dançando nos jardins do castelo. BNF Fla.81.K.

Professor Paulo Edmundo Vieira Marques

Jona d'Arc - Herege Salvadora


Manuscrito século XV, início do século XVI, França BNF. Fl. Gallica.


Grande personagem da história medieval, talvez um dos mais importantes na minha opinião, Joana d”Arc nasceu em Domrémy, região da Loraine, França, em 1412, sendo um dos cinco filhos de Jacques d”Arc e Isabelle Romée. Como era normal à época, Joana ajudava nos trabalhos da casa e também auxiliava o pai no campo, principalmente com o gado.

Não sabia ler nem escrever. Crente, muito religiosa e menina séria, Joana era uma criança como as outras: brincava, cantava, dançava, sorria, mas chorava seguidamente. Até a sua morte foi uma pessoa emotiva e ponderada. Possuía uma personalidade muito forte, incondicional defensora da justiça. Intransigente mas ao mesmo tempo valente. Uma grande mulher.

Como os outros dos habitantes do campo e do vilarejo, a pequena Joana de Domrémy, ouvia falar seguidamente do estado calamitoso em que se encontrava o reino francês. Sabia da crueldade da guerra e da longa ocupação dos ingleses. Assustava-se seguidamente com os alertas quando os inimigos se aproximavam de seu povoado e fugiam para um refúgio mais próximo.

Ainda, diante das circunstâncias da ocupação inglesa, ainda menina tornou-se um soldado santo para alguns e a herege salvadora para outros. Desde o momento de sua morte tornou-se inspiração para milhares de historiadores, poetas e pintores. Cada um com a sua colocação e seu ponto de vista a respeito da heroína francesa contam uma história diferente.

Guiada pelo que ela achava eram vozes divinas, Joana acendeu nos franceses a força do maravilhoso cristão, da fé inabalável, e do aparecimento de um patriotismo popular alimentado pelo ódio inglês, ódio que subsistirá, ou reaparecerá.

Sua primeira vitória; persuadiu os compatriotas e o senhor Vaucouleurs, nobre francês e agente do Delfim, a dar-lhe uma espada e salvo conduto, roupas de homem e uma pequena escolta para se deslocar sem dificuldades, de noite, por vias afastadas, desde Champanha até à Touraine.

Na segunda vitória reconheceu o rei entre os cortesãos de Chinon; ultrapassou provas (mal conhecidas) que lhe foram impostas perante o Parlamento de Poitiers (e a constatação da sua virgindade feita pelas matronas) e conquistou a confiança e o respeito dos rudes soldados e dos seus comandantes, apesar de ser uma menina e mulher.

As vitórias seguintes ultrapassaram largamente as precedentes. Em primeiro lugar na qualidade de “chefe de Guerra”, mas apenas com algumas centenas de homens, atirou-se sobre Orleães cercada e libertou a cidade (8 de maio de 1429), chave de toda a penetração e ocupação inglesa nos Estados delfinais: vitória estratégica e moral considerável. Em seguida, e, sobretudo, decidiu o indeciso Carlos VII seguir o caminho de Reims para aí se fazer sagrar segundo os ritos, com o óleo de Santa Âmbula, e tornar-se assim o rei ungido com o Senhor e quase-padre recebendo o seu reino de Deus, mas eis quem, tranquilizando sem dúvida um monarca de quem a Donzela tinha sempre jurado a legitimidade humana e divina, lhe assegurou autoridade e prestígio. Para ele e, sobretudo para a Virgem se dirigiam a fidelidade e a fé populares, pois esta epopeia foi rapidamente conhecida e interpretada como um sinal do Céu.

 

“Em nome de Deus, devemos combatê-los. Teremos os ingleses em nossas mãos. Porque Deus nos enviou para puni-los. Hoje, o Delfim gentil terá a maior vitória que Ele conquistou durante muito tempo! Minhas vozes disseram-me que o inimigo vai ser nosso.”

 Joana d’Arc


 Em quatro meses, de abril a julho de 1419, Joana tinha conseguido o essencial e o inesperado. Por que é que Carlos VII se teria importado quando ela caiu, ferida, diante de Paris, foi presa em Compienha, vendida aos ingleses, julgada e condenada a fogueira por um tribunal composto com este intento? Ela tinha cumprido o seu intento, o rei já não precisava dela, e os ingleses ficaram encantados por se desembaraçarem daquela que tinham sempre considerado uma feiticeira, com enormes poderes.

Joana d’Arc morreu com 19 anos em Rouen, por perjúrio e heresia. Sua morte a fez muito poderosa. A partir do século XVI, na França, fez dela uma heroína nacional. Os homens de séculos subsequentes, principalmente os poetas e historiadores, levaram a sua história para suas peças, poemas e livros. Sua imagem foi exposta em várias estátuas. Ela tornou-se o espírito da França, a donzela, o santo guerreiro, o símbolo republicano e napoleônico para a oposição aos ingleses e para aqueles que tentavam invadir e ameaçar o território francês contra o estrangeiro. Na Segunda Guerra Mundial, Charles de Gaulle usou seu padrão, a sua marca, a Cruz de Lorena , como o símbolo da França Livre. Em 1920 ela foi canonizada como santa pelo Papa Bento XV.

 

Detalhe manuscrito final do século XV, França BNF.

Obs: artigo em homenagem aos 600 anos do nascimento de Jona d'Arc
Professor Paulo Edmundo Vieirta Marques


Os Torneios: Condenação Espiritual e Ordem Social.

 

Manuscrito século XIV, British Library, FL, 78 Exp.


Dentro dos antecedentes históricos dos torneios no contexto medieval europeu, procurou-se também na proposição do trabalho, estudar estes eventos e ressaltar alguns aspectos que se julgaram pertinentes com relação a sua ampla implicação; e foi de extrema importância, o aspecto condenatório exercido pela Igreja neste tipo de jogo militar e também o da organização e manutenção da ordem pública, pelas autoridades, para manter este tipo de evento sob controle. A partir das influências da Igreja e das nobrezas governantes, os torneios e justas, caracterizaram-se de formas diversas socialmente e politicamente na sociedade medieval européia.

 

Por muito tempo os torneios foram condenados pela Igreja e banidos por leis seculares. Observa-se que os torneios se desenvolveram muito nos séculos XII e XIII, e neste período, as regras da Igreja, foram rígidas. Eram contrárias a estes eventos, colocando restrições severas aos cavaleiros que participassem de torneios, pois estavam sujeitos a punições espirituais. Sua enorme popularidade, no entanto, enfraqueceu as imposições da Igreja e, por isso foram criadas novas leis seculares para tentar regular o combate. Diante disso, durante muitos anos, um cavaleiro que participasse dos torneios estaria desafiando Deus e o rei, criando um confronto que perdurou por longos anos e que contribuíram para a transformação sócio-cultural na sociedade medieval como argumenta Jean Flori:

 

“O favor imenso encontrado pelos torneios, apesar das proibições repetidas da Igreja, comprova que o exercício das armas não lhes parecia de forma alguma, por si só, maculado de pecado. Em compensação, a doutrina eclesiástica e a moda dos torneios, embora radicalmente opostas, contribuíram ambas fortemente para a definição da cavalaria e da ética cavalheiresca”. [1]

 

A Igreja declarou sua oposição aos torneios logo quando eles surgiram. O Nono Decreto do Conselho foi criado em uma reunião eclesiástica em Clermont em 1130 e proibia a realização dos torneios e, em caso de morte de algum competidor durante um embate era proibido conceder perdão eclesiástico ao cavaleiro e, aos participantes dos mesmos, também seria negado o viaticum (perdão concedido a quem matou o oponente). A razão para criar essas proibições era simples: torneios tirariam a vida de cavaleiros e colocava suas almas em risco. O embate era perigoso e violento, o crime de homicídio era facilmente cometido, mesmo que sem intenção de matar. As colocações proibitivas faziam sentido, mas outros motivos, além da violência, como a ostentação do amor, o erotismo, característicos nos torneios medievais, e aparte da política eclesiástica, faziam com que a Igreja aumentasse sua oposição diante dos embates realizados nestes eventos, como argumenta Cardini:

“O penhor de amor ostentado em torneio é, juntamente com as armas pintadas no escudo, as sobrevestes e a gualdrapa[2] do cavalo, o emblema característico do cavaleiro que participa os jogos militares. A tensão erótica, que pode ir até ao espasmo, é uma característica essencial deste tipo de atividade cavaleiresca e permite-nos entender por que motivo a Igreja, opondo-se a ela, pretendia propor um discurso ético e social muito mais profundo e complexo do que poderíamos imaginar, se nos limitássemos a avaliar essas proibições sob o ponto de vista redutivo de uma política eclesiástica destinada a limitar a violência e o derramamento de sangue”. [3]

 

No decorrer do século XII, os combates já estavam bem estabelecidos e enraizados no cotidiano cavalheiresco. A autoridade da Igreja estava fraca para conseguir banir a prática dos jogos militares. Mas mesmo assim, a sua posição oficial permaneceu inalterada pelo menos 200 anos. No começo, o decreto do Conselho de Clermont, regulamentando as proibições, foi simplesmente repetido sucessivamente em outros conselhos.


Os romances de Chrétien de Troyes, século XII, que Cripps-Day salienta como provocativos ao poder da Igreja[4], surgiram apregoando os torneios como sendo parte central na vida dos cavaleiros. Era a forma de como os cavaleiros provavam a sua origem nobre, mostrando as suas proezas e sua habilidade; foi através dos torneios que eles atraíram a atenção e o amor das damas, foi aqui que eles despertaram as virtudes do cavaleiro como a coragem, a cortesia e generosidade. Diante disto, pressentindo um afastamento da nobreza cavalheiresca dos ensinamentos clericais [5], como cita Barber, e para tentar conter a proliferação dos torneios a Igreja tentou criar uma ideologia mais atraente aos cavaleiros, participantes dos jogos. O Papa Celestino III tomou a decisão de escrever, em 1193, aos bispos ingleses, uma carta[6] em que proibia os torneios e encorajava os cavaleiros a participar das cruzadas na Terra Santa onde eles poderiam usar suas habilidades para se tornarem mais experientes e com isso beneficiariam seu corpo e alma. 

 

A última imposição formal de um papa ocorreu em 1312 com extrema rigidez e exigia que as proibições fossem aplicadas e observadas. Clemente V chamou todos os príncipes da Europa para que libertassem a Terra Tanta das mãos dos pagãos e proibiu os torneios e até mesmo as távolas redondas. Qualquer um que participasse de torneios seria excomungado e somente o papa poderia absolvê-lo e, caso o cavaleiro estivesse morto, estava automaticamente condenado. Havia aqueles que não concordavam com as regras do Papa, alegando insensatez, o que causou inúmeros atritos, gerados pelo fato do pontífice conclamar os cavaleiros para a Guerra Santa, mas ao mesmo tempo negava os jogos militares, alegando grande derramamento de sangue nesse tipo de competição.


Quando João XXII chegou ao trono papal em Avignon em 1316, uma de suas prioridades foi remover as proibições da igreja com relação aos torneios. E em 11 dias como Papa, ele criou o Quia In Futurorum que finalmente admitia que a Igreja houvesse falhado em suas tentativas de banir os espetáculos. Após criar seus próprios argumentos ele confessou que seus predecessores cometeram um erro ao proibir os torneios, pois entendia que os cavaleiros não queriam participar das Cruzadas a menos que tivessem também o direito de participar dos torneios e justas. Estes argumentos na verdade era uma forma de esconder o verdadeiro motivo pelo qual o Papa removeu as proibições; o motivo real era que os filhos de Felipe, o Justo, da França fizeram grande pressão política sobre ele para que liberasse os torneios. A atitude oficial foi reconhecida por todos os grandes da Igreja no período de 1316.


As histórias em torno dos torneios eram as mais diversas em virtude da grande polêmica que causava. Graças as crônicas de Walter Map[7], na década de 1190 e de Thomas Chantimpré [8], 1201-1270, podemos através delas notar que quando os argumentos da Igreja falhavam os cronistas se encarregavam de incentivar os seus horrores. Os autores criavam lendas, (principalmente as de mortes trágicas)[9] como a de um cavaleiro desconhecido que teria morrido no momento em que ia vencer uma feroz batalha em um torneio; também relatam a morte de cavaleiros, sobre espíritos que sem perdão ficavam vagando sem ter o descanso eterno e atormentando aqueles que ousassem participar de torneios. Dentro das histórias relatavam a inclusão dos demônios que voavam sobre os campos dos torneios, como um presságio do número de fatalidades que estavam prestes a ocorrer; visões de uma viúva sobre a terrível morte de seu esposo em um torneio e que seu fantasma estava sofrendo no inferno.



Manuscrito medieval, do século XIV, início do XV, justas de chão comuns à época.


Porém existiam também as histórias de milagres que favoreciam os cavaleiros, como nos relata Larry Benson, a partir da tradução de manuscritos à época.

 

 “Uma história de milagre muito popular (a primeira que apareceu no final do século XIII) a respeito dos torneios, descreve como um cavaleiro que sempre acenava para a população local antes de se dirigir a algum torneio, e que um dia ele teria chegado atrasado a esse evento. Por conseguinte em seu lugar um anjo (algumas versões diziam que era a Virgem Maria) teria lutado em seu lugar e capturado diversos oponentes; alguns consideraram esta história uma blasfêmia, passível de punição severa”. [10]

 

   Até Cristo é descrito como um cavaleiro que teria lutado em Jerusalém, vestindo a armadura contra o diabo, seguindo o relato das traduções de Benson:

 

“Sublime e majestoso, com sua armadura prateada e reluzente, a frente dos cavaleiros, o Filho de Deus, brandindo sua espada, conclama a todos os cristãos para a libertação da Terra Prometida na luta contra satanás.. O Cristo homem se faz presente diante da insensatez do mal que reina na cidade sagrada”. [11]

 

 No século XIV, a Igreja decidiu que não haveria mais problemas em permitir que os torneios ocorressem desde que os combates transcorressem com espírito de se exercitarem militarmente e dentro de um posicionamento cortês e fidalgo. Era aceitável que os cavaleiros participassem dos torneios com o objetivo de praticar e se exercitar no uso das armas, com a intenção de serem melhores soldados para posteriormente oferecerem seus serviços às Cruzadas.

 

A Igreja via os torneios como um risco à salvação do homem, e as autoridades seculares viam os torneios como um risco à ordem pública. Um grupo de homens armados era um risco potencial à ordem pública e, é por isso que os reis da Inglaterra e França atentaram e criaram certas restrições nos séculos XII e XIII como forma de controlar possíveis desordens públicas que poderiam ocorrer em virtude da presença de homens armados nos vilarejos e cidades. Era muito comum a utilização dos torneios para realizar conspirações ou assassinatos. A lei Statuta Armorum criada em 1292, por Eduardo II, rei da Inglaterra, (1307-1327), foi uma forma legal de prevenir que os torneios deturpassem a ordem pública. Estas regras não eram passadas aos participantes diretos, os cavaleiros, e sim para os assistentes que geralmente, conforme a nobreza eram os causadores de desordem. Em outras regiões, principalmente no norte da Europa, foram tomadas precauções especiais, principalmente a partir do século XIV, ou seja; os cavaleiros eram recebidos nas cidades somente se a declaração dos conselhos municipais informasse que eles haviam se comportado bem e pago as suas contas nos centros onde eram realizados os jogos. Posteriormente as cidades, durante os torneios, convocaram arqueiros como guardas caso ocorressem distúrbios.

 

Desde meados do século XV a Cristandade Ocidental se vê em crise e os torneios no aspecto religioso e espiritual, sofreram transformações.  Constantinopla é tomada em 1453, pelo sultão turco Maomé II; os reis cristãos, politicamente divididos e o papado romano corrompido são impotentes para reagir. A grande peste (Peste Negra) e a Guerra dos Cem Anos deixaram um rastro de destruição apocalíptico. Nesse ambiente, muitos pensadores se tornaram audaciosos na crítica à visão de mundo tradicional e aos valores perpetuados pela teologia medieval, como cita Minois:

 

 “O Humanismo triunfante e sua virtude enervante (no sentido etimológico) ganha as mais altas esferas do clero, inclusive papas. As preocupações intelectuais se sobrepõem às exigências espirituais e dogmáticas, o saber sobre o agir, as veleidades sobre as decisões. O imenso apetite de cultura inverte os limites impostos pela fé dos séculos precedentes. O espírito se abre a todos os domínios do conhecimento humano; os exclusivos recuam. O mundo dos intelectuais começa a se instalar no terreno, com uma retomada de admiração pelas antigas obras pagãs, um desejo de usufruir os bens presentes e um otimismo sorridente para o futuro, que os engenheiros já povoam de máquinas fantásticas que tornarão a vida mais agradável. O céu não é esquecido, por certo, mas, por enquanto, não há pressa”. [12]

 

 

 Diante destas transformações, principalmente ao que concerne à admiração das obras literárias pagãs, em toda a Europa, os torneios, também sofreram influências e modificações nos seus aspectos sociais, políticos e religiosos, e se desenvolveram em duas formas bem diferentes. De um lado, torneios em grande escala se tornaram muito caros. Cercados por um cenário elaborado e programas dramáticos (teatrais), eles restringiam-se, somente aos reinos ricos, como a Provença e a Borgonha, que tinham experiência e recursos para organizá-los. Enquanto, por outro lado, os desafios individuais (duelos), mais modestos, ganharam grande popularidade, como uma das poucas formas para um cavaleiro adquirir fama e deixar sua marca na história. Nestes desafios, a justa, (lança contra lança) que tem a sua grande difusão na corte de Borgonha e posteriormente se alastra principalmente para o sul da França no século XV, leva o mais alto grau de sofisticação à prática do torneio. Impregnados de romances, os organizadores reconstituem a sua atmosfera ao redor de justas de tema.

 

 

“Uma das mais célebres justas de tema, foi a da Árvore Carlos Magno, realizada em 1443 durante seis semanas por Pierre de Bauffremont, senhor de Charny, e outros doze cavaleiros e escudeiros borgonheses. Com um grande número de espectadores, as arenas do torneio foram acrescentadas enormes tendas, enquanto que três castelos foram escolhidos para hospedar os participantes, onde se realizaram festas suntuosas durantes dois meses”. [13]

  

 

 Cavaleiros em Justas, Árvore Carlos Magno Século XV, (1443). Fonte: BNF, MS. 13467 FL. 29, Paris, França.

 

Ainda no âmbito dos duelos individuais, o gênero mêlée (luta corpo a corpo, preferencialmente realizada no chão, sem os cavalos), se tornou raro e, um modelo distinto de embate surgiu como pas d’armes[14], em que o indivíduo ou equipe, proclamavam sua intenção de defender um determinado local contra todos os possíveis oponentes. Somente na Provença e na Borgonha, provavelmente, se poderia, nesta época, vislumbrar as modalidades justas, mêlée, e pas d’armes inclusas em um único evento de torneio No século XV não existem dúvidas de que todos os olhos estavam atentos aos cavaleiros, que poderiam ter sua grandiosidade encontrada na literatura da época, que o Rei René I muito bem registra no seu Livro dos Torneios, foco dessa pesquisa. As implicações sociais e políticas a partir do século XV sofreram alterações substanciais no que tange a organização dos torneios e aos desafios provocados pela nobreza.

 



[1] FLORI, Jean, op.cit. p.93.

 

[2] Cobertura Longa (espécie de manta) que adorna principalmente o dorso dos cavalos.

 

[3] LE GOFF, Jacques Org, In: CARDINI, Franco, op. cit. p. 71.

 

[4] CRIPPS-DAY, F.H., op. cit. p. 47.

 

[5] BARBER, Richard, BARKER, Juliet, op. cit.. p. 132.

 

[6] Fonte disponível: < http://web.uni-bamberg.de/ggeo/hilfswissenschaften/hilfswiss/immagini.html >. Acesso em 15.07.2005.

 

[7] Fonte disponível: < http://www.ritmanlibrary.nl/ >Acesso em 10.08.2005

 

[9] As pessoas da Idade Média e, principalmente os cavaleiros, receavam a “morte trágica”, aquela que não se vê chegar e que surpreende o pecador, sem que ele tenha tempo de se arrepender, de se confessar e de receber o sacramento da penitência. Antes dos torneios, os combatentes, podiam dirigir-se ao confessor. Depois, era tarde de mais. Durante muito tempo, os moralistas cristãos disseram e repetiram que aquele que morria de espada na mão arriscava sua alma. (Françoise Autrand, Artigo publicado em Historie Special, nº55, Setembro, 1998), Paris.

[10] Tradução: BENSON, Larry D. The Tournament in the Romances of Chrétien de Troyes & L'Histoire de Guillaume Le Maréchal, London, 1999. p. 38. 

 

[11] Ibid. p. 40

[12] MINOIS, G. - L'Église et la Science: histoire d'un malentendu. Fayard. Paris, 1990. p. 290.

 

[13] GAIER, C. Technique des combats singuliers d'après les auteurs 'bourguignons du XV siècle, Le Moyen âge,  Favard, 1985. p. 91.

 

[14] Os pas d’armes do século XV, tinham formalização diferente àqueles realizados nos séculos XIII e XIV. Os desafios, em sua maioria, eram embates a fim de defender a propriedade e a honra. Posteriormente, nos séculos subseqüentes (XVI e XVII), diante da tecnologia das armas de fogo, tornou-se necessariamente um confronto, onde um dos oponentes teria que sucumbir, desde que atingido em sua honra por um dos confrontadores.  

Professor Paulo Edmundo Vieira Marques



Torneios e Justas - Especificações Distintas


                                                         Manuscrito alemão do século XV, da cidade de Nuremberg.


Os termos “Torneio” e “Justas” tem duas especificações distintas. O primeiro termo “Torneio”, foi usado para descrever a ocasião toda. Durante a Idade Média, a alternativa comum nas crônicas inglesas e francesas, sobretudo, no período de 1100-1400 é  Hastiludium[1]. Mas a partir do século XV ele recebe uma nova conotação como Pas d’Armes, Tourney, Tournois. Em um torneio, as duas equipes encontravam-se como se fossem ao campo aberto de batalha, em uma competição geral ou mêlée (luta corpo-a-corpo). Era quase a mais perigosa forma de desafio e, como conseqüência, tornou-se cada vez mais rara com o passar do tempo. Assim como o torneio, em seu sentido técnico, tornava-se mais raro, a palavra para ele também era aplicada de maneira mais ampla para todas as formas de combate cavalheiresco.


 No âmbito dos jogos e exercícios militares, o segundo termo, “Justas”, era especificado como combate simples, um cavaleiro contra o outro, embora o competidor de justa possa pertencer também a uma equipe. No período compreendido entre o século XII e XIV, elas eram geralmente travadas sem uma barreira central para separar os combatentes. A arena era a área anexa na qual os torneios e as justas eram disputados. No período inicial dos torneios, as fronteiras eram muito amplas, e nem sempre claramente definidas, mas provavelmente do século XIV em diante um cercado fortificado parece ter sido estabelecido como padrão. Mas, exploraremos as implicações detalhadas destes termos nos capítulos do meu livro sobre os torneios medievais que pretendo editar, se tiver uma oportunidade. Até lá.


[1] Literalmente um jogo de arpões, um jogo de lanças, (recontro entre cavaleiros armados com pesadas lanças de madeira, que tinham como principal objetivo desmontar o adversário). Podendo ser aplicado a todas as formas de combate montado, seja em masse (em massa) ou individual. (CARDINI, O Homem Medieval, 1989, p.69).

Na ilustração abaixo, manuscrito do século XVI, também da Alemanha, mas de Munique, Bavária, percebe-se os cavaleiros prontos para uma justa. Com as lanças pra cima indicando o início do embate. Com vestimentas que denotam a justa como espetáculo e não como um duelo acirrado. Acima os cavaleiros fazem parte de uma equipe que participará de um torneio. Lindas e coloridas imagens que faziam do torneio medieval um dos maiores acontecimentos sociais do contexto medieval, envolvendo todos e a todos.



Justas espetáculos, geralmente e predominantes no início do século XVII. Continham toda a pomba de um grandioso acontecimento. Realizados com certo exagero na indumentária do cavaleiro e do cavalo, continham o conteúdo e a essência de um show. Mas o desafio era instigante e levado muito a sério.


Professor Paulo Edmundo Vieira Marques





Os Brasões Medievais - Ciência das Armas

Os brasões de armas nascem no século XII (1125-1175), por razões simultaneamente à evolução do armamento defensivo do guerreiro, que o torna irreconhecível, e ao desenvolvimento dos torneios e justas. A colocação de figuras e peças distintivas no escudo ou no elmo de um Cavaleiro era um costume que vinha de há vários atrás, mas o desenvolvimento de um método sistemático de identificação de nobres de aspecto semelhante, na guerra, e na paz, foi uma característica da sociedade feudal no Ocidente, com sua ênfase sobre o direito hereditário e a sucessão hereditária das terras e da autoridade. Originalmente reservadas às grande famílias e grandes senhores feudais, as armas passam depois a ser adotadas por todos os combatentes (séc.XIII), a seguir pelos não combatentes (mulheres, cidades, comunidades diversas, etc. Primeiro pessoais, no século XIII tornam-se fixas e hereditárias, enquanto que, sob a ação dos arautos, se estabelecem as regras e as composições gráficas da heráldica. As armas passam a ser uma emblemática social e de linhagem, visando situar uma família e uma descendência no seio de um sistema feudal e, no seio daquelas, pela adição de um sinal suplementar, uma dada  pessoa.


Acresce uma simbólica mais forte para o Cavaleiro do que o não-Cavaleiro, tanto no plano profano, em que os brasões se tornam o centro dos altos feitos de armas cantados pelos poetas e anunciados pelos arautos (sécs. XIII-XIV), como no plano espiritual ligado à pessoa do Cavaleiro e à sua demanda. Por conseguinte, o brasão de armas é agregador, condensador de energias físicas e psíquicas, um apoio graças ao qual a iniciação do Cavaleiro se irá realizar, permitindo-lhe identificar a energia, a força presente dentro de si e o conteúdo simbólico das suas armas, as quais são a estrutura espiritual interior do demandante, bem como a sua vocação revelada no plano divino. O modo operatório das armas desenrola-se segundo dois elementos> Um é o escudo, imagem do Cavaleiro, com a sua divisão em nove partes: o nove, símbolo do homem novo que todo Cavaleiro é e cuja alma é regenerada pela graça do Espírito Santo. Nove pontos essenciais que se relacionam, como sublinha Vulson de La Colombière (La Science Héroique), simultaneamente ao homem psíquico, moral e espiritual:


“Tal como todas as peças inscrita [...] no escudo [...] representam boas ações daquele que é nobilitado, também o escudo representa o corpo do homem que os realizou e os pontos e casas mostram as principais partes deste”


A heráldica e o papel do arauto (herald) estavam intimamente associados com os conceitos de nobreza, fidalguia e cavalaria, que alcaçou sua mais nítida expressão na Europa medieval nos séculos XIII e XIV com a criação de instituições como a Ordem da Jarreteira por Eduardo III da Inglaterra em 1348.

 Edward III e Henrique, duque de Lancaster, da Ordem da Jarreteira, cada um usando um manto azul sobre a armadura e túnica. exibindo seus braços. Manuscrito século XV, British Library.


Os brasões de armas medievais tiveram extrema importância no psíquico do Cavaleiro. O brasão associado ao homem, à sua missão e à sua dignidade, foi entendido na Idade Média como um “ser” protegido pelo Direito. Pela mesma razão, um Cavaleiro punido com a degradação via as suas armas destruídas, significando que o portador, tendo sido incapaz de perseguir o seu ideal, se tornava um “morto” espiritual e profano. Privado de armas, o Cavaleiro não passava de uma “sombra” do que fora.

 

Brasão de Armas de Henrique VIII da Inglaterra (1509-1547). Sem dúvida uma obra de arte. Requeria estudos dos arautos.


Obs: artigo em homenagem ao meu grande amigo André da Livraria Praiamar em Capão da Canoa.

Paulo Edmundo Vieira Marques



Os Manuscritos Medievais


Esta é uma edição fac-símile estritamente limitada a 550 cópias numeradas do Hagadá Rothschild, parte de uma coleção medieval maior conhecida como o Miscellany Rothschild.
O belíssimo e amplamente decorado Rothschild Hagadá , escrito em 1479, no norte da Itália, é parte maior de um manuscrito medieval iluminado conhecido como Miscellany Rothschild que se encontra na coleção do Museu de Israel.



A maioria dos livros medievais são preservados em bibliotecas de pesquisa, em virtude de sua importância histórica e seu manuseio requerer o auxílio de um profissional ou especialista no assunto, geralmente historiadores. Mas esses, livros, manuscritos, estão tornando-se mais acessíveis a cada dia por recursos on line, internet. Entretanto, também requer o auxílio de um conhecedor capacitado para que o objeto pesquisado realmente seja o documento histórico a que procuramos; um manuscrito medieval.

 

A rigor, qualquer documento escrito à mão é um manuscrito, do latim manuscriptus significa literalmente “escrito” (scriptus) “à mão” (manu). Assim cartas, pergaminhos, fragmentos e livros são considerados manuscritos. Mas são os livros que comumente são referidos como manuscritos. Um livro medieval ou códice, a palavra latina para ”tronco de árvore”, usado porque os primeiros livros eram feitos de tábuas de madeira revestidas com cera, similar ao método de hoje em dia, o livro moderno, mas em vez de produzir várias cópias, os escribas medievais não tinham os recursos para “editá-los”, em várias cópias, infelizmente. Os textos, as iluminuras, eram feitos a mão, minuciosamente elaborados e requintados de acordo com a vontade do patrão, patronos. E eram os patronos que determinavam o número de cópias que deveriam ser feitas, geralmente para presentear e se vangloriar do patrocínio. Era documentos belíssimos, incrivelmente decorados, uma luz aos olhos pela delicadeza e dedicação do escriba e iluminador.

 

Ele ou ela (havia escribas mulheres na Idade Média) podiam reunir uma série de textos que não são encontrados juntos em nenhum lugar, pois a sua originalidade era única. As cópias nunca continham os mesmos itens do original, mas seguidamente eram corrigidos para que nenhum detalhe passasse errôneo ao manuscrito original e que fossem percebidos àqueles que o adquirissem. Mas todo e qualquer manuscrito contém surpresas e desafios e que vale um olhar cuidadoso.

 

Manuscritos medievais são geralmente expostos em grandes bibliotecas de pesquisa, apesar de serem encontrados em coleções particulares, catedrais, faculdades e em residências privadas. Há grandes coleções, na Europa estão as principais. Destaca-se a da Biblioteca Britânica, em Londres, as várias bibliotecas de Oxford e da Bibliothèque Nationale da França. Algumas bibliotecas norte-americanas também possuem coleções significativas como: E. Henry Huntington Library, na Califórnia e da Biblioteca Newberry, em Illinois. Nunca tive em minhas mãos a oportunidade de pegar uma raridade tão linda destas, mas quem sabe um dia eu não tenha essa oportunidade de manusear essa maravilha do mundo medieval. Delicio-me navegando pelas bibliotecas do mundo, pesquisando esses preciosos documentos e tentando repassar àqueles que o desconhecem. Como se fossem tesouros, essas raridades maravilhosas, estão lá enterradas na internet, e eu as garimpo com dedicação e com a maior dedicação, pois as amo. Espero encontrá-las no maior número possível e colocar em meu site e blog para que vocês apreciem, tenho certeza que vão gostar.

 


O Lutrell Psalter escrito e iluminado no segundo quarto do século XIV: contém os salmos, e cantigas, calendários e as festas das igrejas e seus festivais e dias dos santos para as respectivas rezas e outras liturgias.

Uma Breve História dos Manuscritos Iluminados


Professor Paulo Edmundo Vieira Marques


Cabeças Medievais



Essa ilustração nos mostra vários recortes de pinturas medievais onde consta cabeças e rostos medievais. Eles nos revelam os usos e costumes das pessoas como chapéus, mantos, adornos etc.. O cotidiano do medievo nas cabeças.


Continue visitando o meu site, ele te mostrará outras curiosidades do cotidiano medieval, por sinal, pouco explorado pelos historiadores. Também veremos, uma pequena amostra, da beleza dos manuscritos e as belíssimas iluminuras. Navegue no medievo, do dia a dia e das lindas imagens. Boa viagem. 



Professor Paulo Edmundo Vieira marques


Cicatrização


Foi durante as cruzadas que os cavaleiros europeus cristãos, considerados pelos muçulmanos de bárbaros mal cheirosos, incultos e com uma tática militar nula e sem efeito, aprenderam e utilizaram a costura dos ferimentos abertos nos constantes combates entre ambos os lados. A cicatrização tornava-se mais rápida mas prejudicada pelo abafamento das armaduras.O cotidiano medieval ocidental referente a medicina sofreria enormes mudanças, para melhor, após os contatos dos muçulmanos com os cruzados



Manuscrito BNF, século XV

Professor Paulo Edmundo Vieira Marques





O Estandarte e a Cruz 




Em Paris, no dia 27 de abril de 1147, nas novas instalações do Templo, teve lugar um capítulo que reuniu cento e trinta cavaleiros “todos vestidos com os seus mantos brancos”. Os irmãos iam examinar a iniciativa de Luis VII que preparava uma nova cruzada e precisava da participação de um forte contingente das comendadorias da França e da Espanha. O capítulo foi honrado com a presença do papa Eugênio III. Foi aí que o Santo Padre concedeu aos Templários a cruz pátea de cor vermelha, ” afim de que este sinal triunfante lhes sirva de escudo e que eles nunca voltem rédeas face a qualquer infiel”.


Os irmãos usaram a cruz cosida no lado esquerdo do seu manto, um pouco acima do coração, e acrescentaram ao seu pendão o balsão, lembrando o grito de guerra dos cavaleiros ” A mim, bom senhor! Balsão ao socorro!” Esta expressão correspondia a “Vall cem” um templário valia por cem soldados. O estandarte era branco e negro, ‘para”, diz Jacques Vitry, “significar que eles (os Templários) são francos e benevolentes para com os seus amigos, negros e terríveis para com os seus inimigos…Leões na guerra, cordeiros na paz” A toda a volta estava bordada a divisa da ordem: “Non nobis, Domine, nom nobis, sed nomini tuo da gloriam” _ “Não a nós, Senhor, não a nós, mas a teu nome só dá a glória”

Nenhum combatente podia deixar o campo de batalha enquanto avistasse o balsão. Era, por isso, estritamente proibido baixar o estandarte e servir-se dele como lança, sob pena de castigo severo.

Fonte The Knight in History, Frances Gies.

Obs: Pesquisa feita em homenagem ao meu amigo escritor e amante do medievo Sergio Gallina. Que Deus o tenha, templário dos nossos tempos atuais. Lutador. Batlhador das palavras e das letras. Abraço, saúde.


Manuscrito medieval, século XIV, BNF - França



Professor Paulo Edmundo Vieira Marques

Os Torneios Medievais: Espetáculos e Desafios
Pequeno resumo do meu trabalho: obra completa no meu blog: pvmarques.wordpress.com



Nos dias de hoje, nebulosos, agitados, estressantes, as luzes e cores da ostentação sempre ofereceram uma fuga da realidade mundana. A vida medieval era geralmente mais enfadonha, mais cinzenta e mais dura do que a nossa, e suas grandes ocasiões distinguiam-se ainda mais fortemente diante de tal cenário. Imagine um mundo onde as cores vivas eram um luxo, onde a música era ouvida somente nas feiras, nas cortes e em grandes aglomerações do mesmo tipo, onde os entretenimentos podiam ser vistos em raros intervalos e, por conseguinte, somente nas cidades e nos vilarejos, um mundo onde, após o anoitecer, a escuridão era quebrada por alguns tênues clarões. Hoje, quando nossos sentidos são bombardeados por uma fartura de riquezas, ainda conseguimos reagir à pompa de uma grande ocasião. O efeito sobre um espectador medieval de tal desfile suntuoso era muitas vezes mais intenso.

Os torneios estavam no centro de grande parte da ostentação medieval, e é esta imagem que hoje permanece conosco. Eles combinavam o espetacular com toda a excitação de um combate físico hábil e perigoso e a resultante veneração dos heróis de suas estrelas. Somado a isso, havia um elemento de idealismo, pois o torneio era fundamental ao mundo da cavalaria, e as damas que assistiam das arquibancadas estavam lá tanto para inspirar como para admirar seus cavaleiros, e para fortalecer lhes a coragem com sua presença. Mas diante de tais indagações e constatações no presente pergunta-se; como um combate simulado tornou-se um espetáculo? Quando foi criada a ideia de um torneio? Havia regras e formas estabelecidas? Como foi difundido tal prática? O que sabemos sobre os detalhes da técnica e armadura? As respostas são surpreendentemente difíceis de descobrir e foi somente nos últimos anos, com o renascimento do interesse na ética e realidade da cavalaria que os estudiosos começaram a responder a algumas dessas questões, como que seguindo um conselho de Le Goff que diz:

“Com grandes esforços de métodos e respeitáveis esforços de imaginação, podemos, entretanto, fazer com que as lacunas falem. É uma das tarefas dos medievalistas que virão fazer falar os silêncios atuais da Idade Média”.

Este trabalho usa esta pesquisa recente para exibir um quadro coerente do torneio medieval, mas muitas das conclusões precisam inevitavelmente ser provisórias.
Os historiadores medievais ignoravam os torneios completamente, ou anotavam somente os detalhes mais breves. Deste modo se tem que procurar os menores fragmentos de evidência e reunir o que pudermos na bibliografia especializada, nas crônicas medievais, nos livros específicos como o Livro dos Torneios de René D’Anjou, do século XV, foco deste trabalho, de maneira ampla para ilustrar e dirimir dúvidas e conceitos a respeito do tema, como se exemplifica na ilustração abaixo:

Outra fonte usada (com grande cautela e como último recurso) foram os romances de cavalaria. A pesquisa nas bibliotecas de todo o mundo (via internet) a respeito do assunto proporcionou excelentes resultados, no que tange as variadas opiniões a respeito de interessante abordagem histórica. Diante das dificuldades, o sentimento é de escrever uma história de futebol a partir das páginas de notícias de jornais atuais: as reportagens sobre esportes da Idade Média (se é que existiram) em geral desapareceram.

Definiu-se o termo “torneio” para descrever a ocasião toda, simplesmente porque é familiar ao leitor moderno como um termo geral. A alternativa comum nas crônicas inglesas e francesas no período de 1100-1400 é Hastiludium .

Já as “justas” eram especificamente combates simples, um contra um, embora o competidor de justa possa pertencer a uma equipe; no período de até 1400, elas eram geralmente disputadas sem uma barreira central para separar os combatentes. A arena era a área anexa na qual os torneios ou justa eram disputados; no período inicial do torneio, as fronteiras eram muito amplas, e nem sempre claramente definidas, mas do século XIII em diante um cercado fortificado parece ter sido estabelecido como padrão. Mas exploraremos as implicações detalhadas destes termos mais adiante nos capítulos pertinentes ao assunto. 




Professor Paulo Edmundo Vieira Marques

Castelo de Peles na Romênia - Um Passeio com música 

Castelo de Peles - Romêmia





Benozzo Gozzoli - Uma Pequena Biografia


                                                     O Jovem Homem de chapéu vermelho que se presume ser o auto-retrato de Benozzo Gozzoli


Escrevo essa pequena biografia, pequena mesmo, mais pela extrema admiração que tenho por Benozzo Gozzoli. Certamente, futuramente, pesquisarei com um maior embasamento sobre o artista, escreverei artigos de maior consistência e com maiores detalhes que o grande pintor merece.

Benozzo Gozzoli, nasceu em em Florença em 1420 e faleceu em 1497. Nascido de família humilde, chamava-se Benozzo di Lese di Sandro, apelidado Gozzoli.

Trabalhou na catedral de Orvieto com Fra Angélico, depois em Montefalco e Viterbo. Fixa-se em Florença, onde executa obras para a família Médicis. Demora-se alguns anos em Pisa, para fazer decorações no Campo Santo, destruídas na última guerra, Segunda Grande Guerra Mundial. Teve uma morte com agonia em virtude da peste que adquiriu e se prolongou por algum tempo.

Entre as suas principais decorações e afrescos estão as da capela do palácio Médicis, hoje palácio Médicis-Riccardi, com os temas Anjos em Adoração, Adoração dos Pastores e Cortejo dos reis Magos. Nestas composições, as personagens bíblicas são membros da família Médicis e figuras da sociedade florentina da época.

Discípulo de Fra Angélico, recebeu desde também grande mestres, a influência do colorido, particularmente dos azuis, vermelhos e dourados. No decorativismo minucioso e aristocraticamente suntuoso, mostra sugestões das iluminuras e mosaicos bizantinos.

Suas principais obras foram: decorações com afresco na igreja dso convento de São Fortunato, em Montefalco; na capela do palácio dos Médicis, em Florença e na igreja de Santo agostinho, em San Gimignano: a Virgem, o Menino e os Anjos e A Virgem o Menino e os santos (Pinacoteca de San Gimignano); Triunfo de São Tomás de Aquino (Museu do Louvre) e Descida da cruz (Coleção Horne, Florença).


Benozzo Gozzoli, A contemplação dos Anjos, Florença, Palácio dos Médicis, 1459-1461


Professor Paulo Edmundo Vieira Marques


A Pintura a Óleo - Uma das Grandes Inovações do Medievo


Altarpierce de Ghent, cidade flamenga, 1432. Óleo 350×461 cm, localizado no interior da catedral de St. Bavo.


Quero chamar a atenção para os leitores do meu blog para um fato significativo da nova mentalidade de que se possuído o homem europeu no medievo. É o fato de que a primeira grande inovação da pintura pré-renascentista tenha sido de natureza técnica, paralela ao emprego da pólvora, da bússola, do papel e da invenção de Gutenberg na arte da imprensa.É o processo de pintar a óleo que a Antiguidade e que o maior período da Idade Média não conheceram, a Renascença adotará e chegará aos nossos dias. Os pintores do passado haviam usado apenas as técnicas do afresco, da têmpera e da encáustica.


A encáustica é uma técnica de pintura , na qual o artista mistura cores em uma cera aquecida e derretida. Esta cera é aplicada na superfície a ser pintada; como é de secagem rápida, usa-se também colocar uma lâmpada ou outra fonte de calor sob o suporte da pintura; o calor amacia a tinta de cera, permitindo que o pintor obtenha vários efeitos de cor e textura. A encáustica era uma técnica muito usada na Grécia desde o século V a.C. até o século IX d.C., quando caiu em desuso. A reconstituição desta técnica foi possível em 1845, quando foi descoberta uma caixa de pintura encáustica no túmulo de um pintor em uma cidade francesa. Por não se deteriorar facilmente, a pintura permanece perfeita por vários anos. São famosos os retratos de múmias com este tipo de pintura. A palavra encáustica vem do grego, egkaustiké, que significa queimado.


A pintura a óleo consiste basicamente na dissolução dos pigmentos ou pós das tintas, constituídos de óxidos minerais, no óleo de linhaça refinado, que pode ser acompanhado de essência secativa. Em relação as técnicas que existiam é verdadeiramente revolucionário pela simplicidade da preparação, facilidade na execução, variedade dos efeitos expressivos, em particular da representação das texturas das diferentes matérias e nas gradações luminosas.


Permite com maior frequência, sem alterar a consistência da pintura, tantas correções quantas necessárias, além de interrupções demoradas na execução. Por estas e outras vantagens, a nova técnica difundiu-se na Europa, tornando-se preferida nos quadros de cavalete pela maioria dos pintores, aos tradicionais e laboriosos processos da têmpera e encáustica. Os mestres do renascimento, em todos os países, desde o italiano Leonardo da Vinci ao alemão Albert Durer, foram pintores de quadros a óleo. Uma exceção deve ser feita a Miguel Ângelo que não empregou a nova técnica. Considerava-a pelas facilidades de execução, própria para preguiçosos e mulheres.


A invenção ou o aperfeiçoamento da pintura a óleo tem sido objeto de controvérsias entre historiadores de arte. Muitos autores atribuem-lhe a invenção a dois artistas de Flandres, região na época constituída da Bélgica e Holanda, aos irmãos Hubert e Jasn Van Eyck !1390-1441). Foram notáveis não só pela invenção que lhes atribuem, como pelas qualidades artísticas, minucioso e incisivo realismo, poetizado pela sensibilidade aos efeitos luminosos, a a par de primorosa execução. Outros autores, no entanto, divergem. Atribuem aos irmãos Van Eyck apenas o aperfeiçoamento da técnica da pintura a óleo. O verdadeiro inventor, segundo esses autores, teria sido um monge um tanto misterioso, chamado Teófilo ou Rogkerus. Era ourives, pintor e vitralista, homem de muitas artes e saberes. Escrevera um tratado de arte, Diversarium artium schuedule, no qual se encontram conselhos e instruções sobre desenho, composição e receitas de tintas, misturas etc.


Invenção do misterioso monge alemão ou dos dois ir mãos flamengos, o fato é que a técnica do óleo rapidamente se difundia de Flandres aos demais países europeus, tendo sido logo conhecida e recebida com especial interesse pelos italianos, dadas as relações comerciais que a Itália mantinha com as cidades flamengas. A difusão da nova técnica entre os italianos teria sido obra de um mestre flamengo Roger van Der Weyden ou Roger de La Pasture !1397-1464), discípulo dos Van Eyck, que se demorara em Florença, nos meados do século, em viagem para Roma.


A virgem e a Criança, Roger Van Weyden, 1454, óleo sobre tela, Wysokość: 31,9 cm.


Segundo o historiador de arte italiano Giorgio Vasari (1512-1574), também arquiteto e pintor, celebrizado por seu livro, Vidas de \pintores, Escultores e Arquitetos Ilustres, no qual faz a biografia de numetrosos artistas italianos do XIII ao XIV séculos, Roger de La Pasture teria revelado o segredo da f´poumula do óleo ao florentino Domenico Veneziano (1410-1457), que o teria transmitido a Andrea del Castagno (1423-1457). Para ficar dono exclusivo da importante e prodigiosa receita, Castagno assassinara Veneziano. Durante muito tempo, acreditara-se história de Vasari, cujo livro depois se verificaria estar cheio de inexatidões, até que pesquisas nos arquivos florentinos revelaram ter a pretensa vítima falecido quatro anos depois do suposto assassino, desfazendo-se a versão do crime. Ao que tudo indica a verdadeira história, ou melhor a mais aproximada realidade, da difusão do óleo entre os italianos estaria no livro do mesmo Vasari. O divulgador da nova técnica teria sido Antonello de Messina (1430-1479). Antonello nascera na cidade siciliana de Messina, mas, estilisticamente, pertence à escola veneziana, pelas infl~encias que recebera de Giovanni Bellini (1430-1516), o fundador da escola veneziana renascentista. Estivera em Flandres de onde trouxera a fórmula do óleo, tornan do-a conhecida em veneza. Todavia, a obra flamenga a óleo que despertara maior entusiasmo e admiração dos florentinos, especialmente de Andrea Verrochio (1435-1488) e de seu discípulo Leonardo da Vinci (1452-1519), fora o tríptico A adoração dos Pastores, de Hugo van Der Goes (- 1482, pintada para o florentino Tommaso Portinari, repreasentante em Bruges do banco da família Médicis.


Hugo van der Goes, Adoração aos Pastores Portinari Retábulo (1475-1476)


As excelências da nova técnica poder ser avaliadas tanto por sua imediata aceitação na época quanto por seu generalizado emprego ainda em nossos dias. As pinturas foram de um esplendor ímpar que nos encantam até hoje de forma cativante, misteriosa, instigante. Ahhh, esses homens artistas do medievo que até os nossos dias nos contemplam com tanta beleza, muito, muito obrigado.


Obs: Este artigo foi escrito em homenagem ao meu filho primogênito Paulo Eduardo Scalzilli Vieira Marques, apreciador da boa arte. 

Detalhe -Antonello da Messina – Annunziata, (1475).

Paulo Edmundo Vieira Marques



Agincourt - Massacre de Cavaleiros Através de Flechas


Ilustração Batalha de Agincourt, John Gilbert, final séc. XIX.


É muito difícil para um historiador escrever um artigo, objetivamente, sucintamente, mas com conteúdo sobre um tema tão importante para a História Medieval como foi a Batalha de Agincourt. Mas eu tive um professor na PUCRS chamado Helder Gordim Silveira que certa vez me puxou para um canto e me disse objetivamente: Paulo a tua maior virtude como historiador é o teu poder de síntese para temas e contextos históricos, use-os da melhor maneira. Fiquei muito envaidecido. Quando não foi a minha surpresa que outro professor ainda mais experiente na escrita da História, professor Moacyr Flores, disse-me a mesma coisa. Creio que diante de opiniões tão capacitadas tenho certo respaldo para me aventurar em artigos que requerem certa objetividade. Espero que diante de análise de peritos, espero escrever um artigo que sustente as perspectivavas dos meus mestres e seja sensível e objetivo.


Foi Agincourt talvez a última batalha da Cavalaria. Com um desprezo manifesto pela infantaria, os cavaleiros franceses, embaraçados com equipamento demasiado pesado, vão morrer no assalto em que os arqueiros ingleses terão provado a supremacia das armas ligeiras.


Outubro de 1415. A chamada Guerra dos Cem Anos chega quase ao seu final. O desafio não mudou desde o reinado de Eduardo II, iniciador do conflito. A França sofre inúmeras derrotas, batido em Écluse, Crécy e Pitiers em 1340, 1346 e 156, o reino capetiano volta a reanimar graças a Carlos V. O rei, com a ajuda de dois valentes soldados, o bretão Bertrand du Guesclin e o cavaleiro Jean de Vienne, restabeleceu o equilíbrio. Infelizmente este monarca prudente morreu demasiado cedo. Carlos, seu filho, esta doente e só tem curtos instantes de lucidez. A esposa deste, Isabel da Baviera, conduz os assuntos. Frívola e ávida, raramente opta pelo interesse da França. À vista de todos a Borgonha tece a sua própria teia demasiado favorável à dos ingleses. Em Londres, Henrique V de Lancaster tem vinte e sete anos e reina desde 1413. Em política, persegue as ambições dos Plantagenetas. Quer anular as anexações de Felipe Augusto e recuperar os territórios cedidos aos ingleses pelo tratado de Brétigny de 1360, mas retomados por Carlos V. Indo ainda mais longe e situando-se na dependência de Eduardo III, aspira ao trono de França. Nesta perspectiva, Henrique V pensa desposar Catarina, a filha de Carlos VI. A princesa tem apenas 14 anos e o monarca tem pressa. Sem esperar os trâmites do casamento, que acabarão por chegar, com a dama munida de um belo dote, prepara-se para as hostilidades. A 28 de julho, o seu arauto apresenta-se ao rei da França, portador de uma carta na qual reivindica o reino da França. Em caso de recusa, ameça “cobrir essa terra de um dilúvio de sangue humano”. Carlos VI recebe a missiva num momento de lucidez. responde com dignidade: “O conselho da França tentou todas as vias para evitar a guerra; de resto, as suas ameaças não me assustam e se o Céu se dignar conceder-me saúde por algum tempo, vão me encontrar preparado para vos expulsar da França se cá ousar entrar”. Os dados são claros. Se Henrique V persiste nos seus desígnios, será de novo a guerra. E o inglês persiste. A 19 de Agosto de 1415, 1600 navios saem de Southampton e Portsmouth com cerca de 30 000 homens a bordo. Tendo desembarcado, anteriormente, não longe da embocadura do Sena, Henrique V dirige-se para Harfleur, que cerca a 18 de Agosto. Nessa altura, no descalabro geral da autoridade real, não existe exército francês devidamente constituído.


Um homem de coragem, o marechal Boucicaut, consegue no entanto preparar sem demora 6000 homens de armas com os quais persegue os sitiantes. A sua ação não pode todavia evitar a capitulação de Harfleur, que abre as portas ao inglês no domingo 22 de setembro. Henrique É muito difícil para um historiador escrever um artigo, objetivamente, sucintamente, mas com conteúdo sobre um tema tão importante para a História Medieval como foi a Batalha de Agincourt. Mas eu tive um professor na PUCRS chamado Helder Gordim Silveira que certa vez me puxou para um canto e me disse objetivamente: Paulo a tua maior virtude como historiador é o teu poder de síntese para temas e contextos históricos, use-os da melhor maneira. Fiquei muito envaidecido. Quando não foi a minha surpresa que outro professor ainda mais experiente na escrita da História, professor Moacyr Flores, disse-me a mesma coisa. Creio que diante de opiniões tão capacitadas tenho certo respaldo para me aventurar em artigos que requerem certa objetividade. Espero que diante de análise de peritos, espero escrever um artigo que sustente as perspectivavas dos meus mestres e seja sensível e objetivo.


Foi Agincourt talvez a última batalha da Cavalaria. Com um desprezo manifesto pela infantaria, os cavaleiros franceses, embaraçados com equipamento demasiado pesado, vão morrer no assalto em que os arqueiros ingleses terão provado a supremacia das armas ligeiras.


Outubro de 1415. A chamada Guerra dos Cem Anos chega quase ao seu final. O desafio não mudou desde o reinado de Eduardo II, iniciador do conflito. A França sofre inúmeras derrotas, batido em Écluse, Crécy e Pitiers em 1340, 1346 e 156, o reino capetiano volta a reanimar graças a Carlos V. O rei, com a ajuda de dois valentes soldados, o bretão Bertrand du Guesclin e o cavaleiro Jean de Vienne, restabeleceu o equilíbrio. Infelizmente este monarca prudente morreu demasiado cedo. Carlos, seu filho, esta doente e só tem curtos instantes de lucidez. A esposa deste, Isabel da Baviera, conduz os assuntos. Frívola e ávida, raramente opta pelo interesse da França. À vista de todos a Borgonha tece a sua própria teia demasiado favorável à dos ingleses. Em Londres, Henrique V de Lancaster tem vinte e sete anos e reina desde 1413. Em política, persegue as ambições dos Plantagenetas. Quer anular as anexações de Felipe Augusto e recuperar os territórios cedidos aos ingleses pelo tratado de Brétigny de 1360, mas retomados por Carlos V. Indo ainda mais longe e situando-se na dependência de Eduardo III, aspira ao trono de França. Nesta perspectiva, Henrique V pensa desposar Catarina, a filha de Carlos VI. A princesa tem apenas 14 anos e o monarca tem pressa. Sem esperar os trâmites do casamento, que acabarão por chegar, com a dama munida de um belo dote, prepara-se para as hostilidades. A 28 de julho, o seu arauto apresenta-se ao rei da França, portador de uma carta na qual reivindica o reino da França. Em caso de recusa, ameça “cobrir essa terra de um dilúvio de sangue humano”. Carlos VI recebe a missiva num momento de lucidez. responde com dignidade: “O conselho da França tentou todas as vias para evitar a guerra; de resto, as suas ameaças não me assustam e se o Céu se dignar conceder-me saúde por algum tempo, vão me encontrar preparado para vos expulsar da França se cá ousar entrar”. Os dados são claros. Se Henrique V persiste nos seus desígnios, será de novo a guerra. E o inglês persiste. A 19 de Agosto de 1415, 1600 navios saem de Southampton e Portsmouth com cerca de 30 000 homens a bordo. Tendo desembarcado, anteriormente, não longe da embocadura do Sena, Henrique V dirige-se para Harfleur, que cerca a 18 de Agosto. Nessa altura, no descalabro geral da autoridade real, não existe exército francês devidamente constituído.


Um homem de coragem, o marechal Boucicaut, consegue no entanto preparar sem demora 6000 homens de armas com os quais persegue os sitiantes. A sua ação não pode todavia evitar a capitulação de Harfleur, que abre as portas ao inglês no domingo 22 de setembro. Henrique É muito difícil para um historiador escrever um artigo, objetivamente, sucintamente, mas com conteúdo sobre um tema tão importante para a História Medieval como foi a Batalha de Agincourt. Mas eu tive um professor na PUCRS chamado Helder Gordim Silveira que certa vez me puxou para um canto e me disse objetivamente: Paulo a tua maior virtude como historiador é o teu poder de síntese para temas e contextos históricos, use-os da melhor maneira. Fiquei muito envaidecido. Quando não foi a minha surpresa que outro professor ainda mais experiente na escrita da História, professor Moacyr Flores, disse-me a mesma coisa. Creio que diante de opiniões tão capacitadas tenho certo respaldo para me aventurar em artigos que requerem certa objetividade. Espero que diante de análise de peritos, espero escrever um artigo que sustente as perspectivavas dos meus mestres e seja sensível e objetivo.


Foi Agincourt talvez a última batalha da Cavalaria. Com um desprezo manifesto pela infantaria, os cavaleiros franceses, embaraçados com equipamento demasiado pesado, vão morrer no assalto em que os arqueiros ingleses terão provado a supremacia das armas ligeiras.


Outubro de 1415. A chamada Guerra dos Cem Anos chega quase ao seu final. O desafio não mudou desde o reinado de Eduardo II, iniciador do conflito. A França sofre inúmeras derrotas, batido em Écluse, Crécy e Pitiers em 1340, 1346 e 156, o reino capetiano volta a reanimar graças a Carlos V. O rei, com a ajuda de dois valentes soldados, o bretão Bertrand du Guesclin e o cavaleiro Jean de Vienne, restabeleceu o equilíbrio. Infelizmente este monarca prudente morreu demasiado cedo. Carlos, seu filho, esta doente e só tem curtos instantes de lucidez. A esposa deste, Isabel da Baviera, conduz os assuntos. Frívola e ávida, raramente opta pelo interesse da França. À vista de todos a Borgonha tece a sua própria teia demasiado favorável à dos ingleses. Em Londres, Henrique V de Lancaster tem vinte e sete anos e reina desde 1413. Em política, persegue as ambições dos Plantagenetas. Quer anular as anexações de Felipe Augusto e recuperar os territórios cedidos aos ingleses pelo tratado de Brétigny de 1360, mas retomados por Carlos V. Indo ainda mais longe e situando-se na dependência de Eduardo III, aspira ao trono de França. Nesta perspectiva, Henrique V pensa desposar Catarina, a filha de Carlos VI. A princesa tem apenas 14 anos e o monarca tem pressa. Sem esperar os trâmites do casamento, que acabarão por chegar, com a dama munida de um belo dote, prepara-se para as hostilidades. A 28 de julho, o seu arauto apresenta-se ao rei da França, portador de uma carta na qual reivindica o reino da França. Em caso de recusa, ameça “cobrir essa terra de um dilúvio de sangue humano”. Carlos VI recebe a missiva num momento de lucidez. responde com dignidade: “O conselho da França tentou todas as vias para evitar a guerra; de resto, as suas ameaças não me assustam e se o Céu se dignar conceder-me saúde por algum tempo, vão me encontrar preparado para vos expulsar da França se cá ousar entrar”. Os dados são claros. Se Henrique V persiste nos seus desígnios, será de novo a guerra. E o inglês persiste. A 19 de Agosto de 1415, 1600 navios saem de Southampton e Portsmouth com cerca de 30 000 homens a bordo. Tendo desembarcado, anteriormente, não longe da embocadura do Sena, Henrique V dirige-se para Harfleur, que cerca a 18 de Agosto. Nessa altura, no descalabro geral da autoridade real, não existe exército francês devidamente constituído.


Um homem de coragem, o marechal Boucicaut, consegue no entanto preparar sem demora 6000 homens de armas com os quais persegue os sitiantes. A sua ação não pode todavia evitar a capitulação de Harfleur, que abre as portas ao inglês no domingo 22 de setembro. Henrique V dispõe agora de um bom porto na costa francesa. Mas a sorte é uma deusa caprichosa. Abandona o rei inglês. Enquanto metade da frota consegue sair da Inglaterra, a tempestade destrói a outra metade que ficara perto das margens normandas. Bloqueados em Harfleur por Boucicaut que não desistiu, os ingleses estão com falta de mantimentos. A doença dizima as fileiras. Para se livrar desse mau passo, Henrique V decide sair da cidade. Abandona a sua ideia inicial, formulada numa carta datada de Setembro, de seguir ao longo do Sena e encaminhar-se para Bordeaux logo após a queda de Harfleur. Por questão de honra, e antes de abandonar o continente, precisa pelo menos de percorrer algumas das terras que reivindica, decidindo subir para o norte ao longo da costa. A 8 de Outubro o exército põe-se a caminho. Não tem a sua volta mais de 26 000 homens e Boucicaut, agarrado aos seus cavaleiros, não o perde de vista. os pequenos ataques dos franceses, em Arques e depois sob os muros da pequena povoação de Eu, custa-lhes vidas. Não sem dificuldades, acaba por alcançar o Soma e consegue atravessar o rio. A sua intenção é agora chegar a Calais, cidade nas mãos dos ingleses desde 1347. Boucicaut continua mais presente do que nunca. Recebeu mesmo ajuda. O apelo de Carlos VI foi escutado. Os cavaleiros ergueram-se em massa para se oporem aos invasores. O condestável Carlos d’Albret, oficialmente o dignatário mais altamente colocado na hierarquia militar, chega com reforços. Todos eles, barões, fidalgos que acorreram confusamente, são cerca de 11 000 e representam os melhores da cavalaria francesa: juntaram-se a  eles 11 príncipes de sangue. No total, os franceses com os escudeiros e os milicianos comunais são agora numericamente os mais fortes: cerca de 40 000. Na sua frente V, que sofreu perdas, dispõe de menos de 20 000 homens válidos. Os franceses têm pois a vantagem do número, mas falta-lhes unidade de comando. O rei não se encontra ali, dado o seu estado. Boucicaut é prudente, mas d’Albret é meio afoito. Os príncipes de sangue agaram-se às suas prerrogativas. Querem impor os seus modos de ver. Em resumo, toda a gente fala e ninguém comanda realmente.


Henrique V, rei da Inglaterra. Pintura século XV.


Quanto a Henrique V, é o único senhor a bordo. para alcançar Calais, esta condenado a passar sobre o corpo dos franceses que formam barragem. Não hesita. Irá bater-se, tanto mais que sabe que os seus adversários só falam em lutar. Tendo transposto o Canche, escolhe ele próprio o sítio do confronto. Na noite de 24 de Outubro, o exército inglês abrigou-se como pôde na zona da aldeia de Maison celles, a cerca de 50 Km a sudeste de Calais, e comeu o pouco de que dispunha. O cenário é um planalto plantado de árvores, tendo ao centro a povoação de Maisoncelles. O lado oriental confina com o bosque de Tramencourt rodeado de fortes sebes; o de oeste ladeia a floresta de Agincourt, nome da modesta aldeia de algumas dezenas de casebres e um castelo feudal. Este terreno isolado é relativamente acanhado: menos de 3 Km de comprimento e 800 metros de largura, onde se irão defrontar os dois adversários, Boucicaut não é só corajoso. Vê com clareza. Desaconselha que se aventurem numa posição demasiado estreita para tentar irrupções e em que o inimigo pode compensar a sua inferioridade numérica. Mas D’Albret, os príncipes de sangue, todos os duques e condes, são de um nível superior ao seu. Têm maioria no conselho. É preciso atacar. O grupo francês, divide-se em três “batalhas”. Mas o espaço disponível impossibilita, como se viu, toda a noção de manobra e não permite que se travem conjuntamente as três “batalhas”. Só poderão intervir sucessivamente num choque brutal de um grupo de cavaleiros e de escudeiros. Arqueiros, besteiros, milicianos comunais, são postos de parte. Os feudais não sabem que fazer com a infantaria, ou seja os simples soldados. Na sua retirada de Harfleur, o rei Henrique V perdeu o grosso dos cavalos. Conta sobretudo com os arqueiros, auxiliares fiéis do exército inglês. Crécy demonstrou isso. Além disso, exercitou-os na manobra do “pique”. Estes piques são longas hastes de vários pés, armadas\com uma grossa ponta de ferro em cada extremidade. Fixadas no solo e inclinadas sob comando, constituem verdadeiros espetos gigantes, quebrando a carga dos cavaleiros.


O Outono já esta bastante avançado. Choveu. A terra de Artois é escorregadia e pesada. Dificulta a marcha dos homens e dos animais. Voltou a chover na noite de 24 para 25 de Outubro. os ingleses dormiram praticamente enxutos, Henrique V mandara-os descansar abrigados. Em contrapartida, os franceses estão fatigados. Apanharam trombas de água e não fecharam os olhos. Na manhã daquele 25 de Outubro de 1415, os dois exércitos defrontam-se a algumas centenas de metros de distância. O silêncio é de rigor no campo britânico; um milhar de homens esta em coluna cerrada de frente. Henrique V encontra-se no centro do seu dispositivo, que compreende cerca de 14 000 combatentes. Aguarda o ataque. No campo francês reina o tumulto e a incerteza prevalece. No último momento Boucicaut conseguiu temperar o ardores belicosos. A ordem de atacar foi adiada e cada um acampa à vontade. Henrique V percebe que os franceses se furtam. O seu exército tem fome. Há vinte e quatro horas que a sua tropa não come. Decidindo-se forçar o destino, ordena marchar em frente. A este movimento imprevisto o grito “Às armas!” ressoa no acampamento francês. Todos se esforçam por retomar as posições um momento ocupadas e depois abandonadas após decisão de adiar a operação. Se o ardor é manifesto, a precipitação perturba a ordem inicialmente estabelecida. Resolutamente, duas colunas de 1200 e a 1500 cavaleiros franceses no total lançam-se contornando os bosques de Agincourt e de Tramincourt. A terra argilosa, recentemente revolvida e semeada, esta embebida de água. Os cavalos atola-se e avançam com lentidão.


Batalha de Agincourt, manuscrito século XV.


A manobra do pique, dos ingleses, é executada com perfeição. A carga detém-se enquanto os arqueiros ingleses fazem chover nuvens de flechas mortais; os dois chefes da cavalaria são postos fora de combate Cliquet de Brabante morre, o conde de Vendôme é feito prisioneiro. O dia começa mal. O condestável d’Albret, com a sua “batalha”, mudará o curso das coisas? Os seus cavaleiros estão teoricamente montados, mas muito vão a pé por falta de espaço e na esperança de se baterem melhor. Por um momento d’Albret parece penetrar na frente adversa, mas é apanhado de flanco pelos arqueiros. Os cavalos, feridos de morte, tombam; os cavaleiros caem em terra. Incapazes de se levantarem sozinhos, ficam a mercê das estocadas inglesas. O condestável e o duque Brabante são os primeiros a ser mortos. O marechal Boucicaut, que não é dos que ficam atrás, é por sua vez gravemente ferido. Desaparece debaixo dos feridos e dos cadáveres. O confronto transforma-se em massacre. Desembocando vaga por vaga, em filas compactas, os franceses, precipitando-se em socorro, vêm morrer alternadamente sob os golpes dos arqueiros e da infantaria inglesa que dispõem de mais mobilidade. Mas o caso não fica terminado. Todos os grupos sofreram. O duque de Alençon agrupa os seus e os restos da “batalha” do condestável. Henrique V faz o mesmo e reconstitui-se em linha a 300 passos. Os dois exércitos vão enfrentar-se de novo. desta vez nas proximidades do castelo de Agincourt que se distingue por trás de uma linha de árvores. Durante longos momentos a escaramuça mostra-se incerta. Os arqueiros ingleses continuam a parecer temíveis. Vigilantes, penetram e ferem os adversários de flanco. os franceses possuem ainda a vantagem do número, mas incapazes de manobrarem, são mais do que nunca obrigados a combater de frente e pagam pelo grande peso dos seus equipamentos. O ímpeto abre-lhe passagem até ao monarca. Com um golpe de espada, afasta o duque de Gloucester, irmão do rei. Com outro, parte a coroa sobre o capacete do rei Henrique V. Mas os ingleses assaltam-no por todos os lados e ele cai mortalmente ferido. os seus fiéis, que o haviam seguido na ambição desesperada de matar o rei, partilham a sua sorte. Os franceses dispõem ainda de 15 000 homens capazes de combater. Mas já não têm chefes dignos desse nome para os conduzir ao inimigo. Todos os grandes feudais, capitães por direito, estão mortos, feridos ou prisioneiros. Perde-se uma possibilidade. O exército de Henrique V, abalado pelos sucessivos esforços dos cavaleiros franceses, poderia ser ainda repelido. Ninguém tem consciência de que a vitória é possível. O pânico dos milicianos nas retaguardas confirma que Agincourt será uma derrota. Henrique V esta senhor do campo de batalha e a barbárie vai enegrecer para sempre o seu sucesso. De fato, 4000 prisioneiros, todos nobres e mais ou menos feridos, estão nas suas mãos. De súbito os boatos da iminência de um novo ataque francês, ordena que os massacrem. Os arqueiros britânicos, a golpes de adaga, encarregam-se da vil tarefa antes de Henrique V mudar a sua decisão. Entretanto, cerca da metade dos prisioneiros estão já mortos. A batalha termina finalmente. Durou apenas três hora; 6000 cavaleiros franceses ficaram mortos, os conde de Venôme e de Richemont, com o marechal de Bocicaut, feridos, ficam prisioneiros. Há um outro prisioneiro famoso, Carlos d’Orleães, o poeta, pai de um futuro rei da França, Luis XII, ficará vinte e cinco anos em cativeiro na Inglaterra, onde cantará a pátria distante. Quanto aos ingleses, apenas tiveram 1600 mortos. A derrota de Agincourt, a 25 de Outubro de 1415, precipita a França naquilo que durante muito tempo foi qualificado nos manuais escolares de “vergonhoso tratado de Troyes” cedendo, em 1420, a França aos inglese. Para além destes incidentes políticos pode-se, evocando um feito de armas, perguntar as causas profundas deste naufrágio militar. Os cavaleiros franceses eram corajosos e não faltaram a essa virtude principal na arte da guerra: a coragem. Mas a coragem, e a história militar recorda-o, nem sempre basta para ganhar batalhas. Assim fica aberto o debate. Quem comandava em Agincourt? Ninguém e toda a gente, como se viu. Desde Felipe VI de Valois que a França esta dividida militarmente entre os marechais da França e os príncipes, estes com o título de tenentes do rei. Estas divisões repercutem-se no campo de batalha. Na ausência do rei, que é o caso em Agincourt, ninguém toma a direção, nem mesmo o condestável. Esta distorção do comando manifesta-se nos assaltos desordenados levados a cabo pelas diversas “batalhas”, na ausência de visão de conjunto da condução do combate. Este exército francês de Agincourt é apenas uma composição de acaso. Todos aqueles cavaleiros sonham com glória e saque, sem consciência de um desafio coletivo. Os milicianos comunais, recrutados para a ocasião, “armados de machados e maças”, têm falta de motivação e de profissionalismo. Os feudais não poderiam dar-lhes lugar. Os 6000 parisienses, bem armados, que poderiam rechaçar os arqueiros ingleses, foram recusados pelos duques de Bourbon e d’Alençon. O exército francês bateu-se sem infantaria. Arqueiros e besteiros foram mantidos em segunda linha e não contaram.

Os senhores da nobreza queriam para si só o ganho da vitória. mantiveram-se fiéis às velhas práticas mais agravadas. Com os anos, estes homens de armas, seguidos dos seus escudeiros e servos, não pararam de couraçar-se. A armadura pesa 25 Kg, o capacete de ferro sobre a cabeça, 5 Kg, as armas pelo menos mais 5 Kg. Assim vestido, o homem de guerra tornou-se uma verdadeira estátua de ferro. O cavaleiro, esmagado pelo peso,perdeu toda a mobilidade, quer combata a pé ou a cavalo. Para compensar, o seu cavalo abandonou boa parte da sua proteção e tornou-se vulnerável. Se o cavalo for morto sob ele, o cavaleiro atirado ao chão é incapaz de se erguer sozinho.

Agincourt, última batalha da Idade Média, túmulo da organização feudal, escreveram os historiadores. Carlos VII, o rei do exército permanente, Luis XI, rei do recurso aos contingentes estrangeiros, compreenderão que é necessário mudar de métodos. Antes deles, Joana, a Lorena, recordaria também que um exército implicava um impulso nacional e que a defesa do país a todos incumbia, nobres ou camponeses.

Fonte: Agincourt – Juliet Parker

Professor Paulo Edmundo Vieira Marques


Franceses prisioneiros, Batalha de Agincourt, manuscrito séc. XV




Ritual de Investidura de um Cavaleiro do Século XII





1. [Invocação do Senhor, de Cristo e da Santa Mãe de de Deus]

2. “Senhor, ouve as nossas preces, e digna-te abençoar com a Majestade da tua mão Direita esta espada, com que este Servidor desejou ser cingido, para que ela sirva para a proteção e defesa das igrejas, das viúvas, dos órfãos e de todos os servos de Deus contra o furor dos pagãos, e leve a todos os assaltantes terror e medo”

3. {Invocação da proteção divina]

4. “Quanto a ti, agora que estás a ponto de ser feito cavaleiro recorda estas palavras do Espírito Santo: “Valente guerreiro, cinge a tua espada (Salmo 45:4); esta espada, é de fato a do Espírito Santo, que é a palavra de Deus. Com esta imagem, afirma pois a Verdade, defende a igreja, os orfãos, as viúvas, os que rezam e os que trabalham , ergue-te prontamente contra aqueles que atacam a santa igreja, para surgir coroado, na presença de Cristo, armado do gládio da Verdade e da Justiça”

5. “Recebe esta espada, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

6. Recebe esta lança, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

7. Recebe este escudo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

8. Recebe estas esporas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém”


Ordinatio militis de Itália do Sul (século XII), ed. R.Elze, Konigskronung und Ritterweihe. Institutionen, Kultur une Gsesllschaft im Mittelatter. Festschrift Josef Fleckenstein zu seinem 65. Geburstag Sigmaringen, 1984,p.341.




Os Torneios Medievais - Autor Paulo Edmundo Vieira Marques


O esboço completo da obra encontra-se no blog : pvmarques.wordpress.com
Inclusive a identificação do que significa os números na ilustração abaixo. Vá até lá e confira.







Santo Estadista - Rei Luís IX ou São Luís




Pintura de Simone Martini (Siena, 1284, Avignon, 1344)
Cenas da Vida de São Luís, têmpera no painel, Galeria Nacional Capodimonte, Napoli, Itália.


Luís IX (1226-1270) tornou-se rei aos 12 anos de idade, sendo colocado no trono sob a regência chefiada pela sua mãe, Branca de Castela. Embora a sua menoridade tenha terminado, oficialmente, em 1234, Branca dominou o seu filho até morrer, em 1252. A canonização de Luís, em 1297, a importância do seu reinado na santificação da monarquia, aos olhos de seus súditos, e a sua preocupação com as cruzadas foram os aspectos mais enfatizados do seu reinado. João de Joinville, que acompanhou Luís numa cruzada, escreveu a memória das suas experiências, depois de 1304, para a instrução do futuro Luís X (1314-1316). Joinville apresenta inúmeros exemplos, ilustrando a piedade de Luís, o seu amor pelos pobres, a sua caridade e ascetismo pessoal, o seu horror à heresia e à blasfêmia e a sua reverência pela justiça.

No entanto, o enquanto rei na terra, São Luís deixou um legado misto: centralizou e institucionalizou o Governo, governou num período de relativa concórdia doméstica, alargou significativamente a jurisdição apelativa do tribunal real e não era uma ferramenta nem dos papas nem do clero francês. Todavia, deixou uma dívida esmagadora, justificada em grande parte pelas suas duas cruzadas. A sua maturidade foi dominada pelo desejo de tomar a Palestina. Depois de recuperar-se de uma grave doença, partiu para o Oriente em 1248. A sua cruzada foi um verdadeiro desastre, para ele e para o Estado francês: a sua saúde ficou arruinada e o tesouro vazio. Luís considerou que o fracasso desta cruzada era consequência dos seus próprios pecados e envergou uma camisa de cabelos, como penitência, até o fim da sua vida.

Mais importante ainda foi a perseguição da ideia, até o fim do seu reinado, de que, para atenuar a sua humilhação, teria de fazer uma conquista bem sucedida. O seu rendimento anual em 1244 era, aproximadamente, cerca de um quarto do que a primeira cruzada lhe tinha custado. Cobriu a diferença tomando propriedades aos judeus, cobrando impostos de cruzadas aos súditos do reino, à Igreja francesa (apesar de ter a aprovação do papa) e contraindo empréstimos junto aos banqueiros genoveses e dos Cavaleiros Templários. O seu alargamento da justiça real também se revelou lucrativo, mas exigia custos administrativos adicionais.

Filipe Augusto tinha permitido aos nobres do norte fazerem uma cruzada contra os heréticos “albigenses” do sul sul da França, mas não tomara parte ativa nessa ação. Luís VIII e São Luís perseguiram, intensivamente, os albigenses. O condado de Tolosa reverteu para a Coroa em 1270, como resultado direto da intervenção real. A outra única grande adição de Luís IX ao domínio real foi a compra do condado de Mâcon, em 1239.

Vimos como Luís IX regularizou as relações com a Inglaterra em 1259. O acordo desagradava tanto na França como na Inglaterra; podia-se apelar para o tribunal real francês na Gasconha, acabando os franceses por adquirir o direito de reunir tropas nessa área. Luís negociou uma trégua semelhante com Jaime I de Aragão, que entregou as suas pretensões para o Languedoc e para a Provença enquanto luís abandonava as pretensões francesas para Barcelona e para o Roussillon. Em nenhum dos casos os resultados foram permanentes; as hostilidades com os ingleses, em relação a Gasconha, irromperam em 1290, bem como as com Aragão, em relação ao seu apoio a Manfredo contra Carlos de Anjou, o irmão mais novo de Luís, na Itália. Luís permitiu que os inquisidores papais reunissem tribunais na França, mas recusou aceder aos pedidos do papa para uma cruzada contra o imperador Frederico II. Ao ajudar Carlos de Anjou, Luís deu início a um envolvimento fatal a longo prazo.



O rei Luís IX da França ao embarcar para a última cruzada em 1270. Manuscrito séc. XIV.



A estratégia da sua segunda e última cruzada, ele morreu no Egito em 1270, pode, na verdade ter sido ditada pelas necessidades políticas de Carlos no Mediterrâneo ocidental.

O Governo local francês foi fortalecido e a cadeia de comando na administração regularizada à medida que os meirinhos e senescais eram colocados sobre grupos de magistrados militares. No entanto, alguns abusos dos meirinhos levaram Luís, a partir de 1247, a nomear enquêteurs (inquisidores), nomeadamente frades, para os controlarem. Embora os príncipes tenham continuado a governar os seus territórios, a partir da época de São Luís as ordenações reais eram consideradas válidas fora do domínio real e os príncipes tinham de as fazer cumprir. Normalizou a cunhagem fazendo que as emissões de moeda real fossem as únicas válidas dentro do domínio real; em outros locais, circulavam juntamente com as cunhagens dos príncipes.

O reinado de Luís IX foi importante para a profissionalização e regulação da justiça francesa. As sessões judiciais do conselho real passaram a ser fixas em Paris, a partir de 1248, onde comitês de cavaleiros e clérigos emitiam julgamentos em nome de todo o conselho. As reuniões gerais do conselho real tornaram-se raras, sendo utilizadas, sobretudo, para assuntos de Estado solenes, tais como como a emissão de ordenações. Os procedimentos dos tribunal do rei (o Parlamento) foram colocados por escrito, pela primeira vez, durante o seu reinado e desde 1254 que sobrevivem. O Parlamento de Paris tornou-se o supremo tribunal do reino, e os apelos feitos para ele tornaram-se mais numerosos com a aproximação do final do reinado de Luís. Os casos reservados para a Coroa foram alargados e o Parlamento obteve o direito de intervir quando os juízes achavam que se estava a negar justiça, mesmo que não se fizesse qualquer apelo. O Parlamento começou a enviar comissários para as províncias para obterem inquéritos juramentados. Esta função desenvolveu-se no século XIV, num departamento distinto, a “Câmara dos Inquéritos”.

O fato das leis usuais das várias províncias se terem desenvolvido tanto tempo, antes de a jurisdição real se ter tornado um decreto, significou que a França não iria encontrar nenhuma “leis dos comuns” semelhante na Inglaterra. Totalmente diferenciada das variações provinciais, também existia uma diferença considerável entre a lei escrita do sul da França e a lei normal das regiões do norte. Desde a época de Filipe III (1270-1285), o sucessor de Luís IX, que o Parlamento possuía um departamento separado para os casos que se encontravam sob a lei escrita ou sob a lei romana.

No século XIII, as despesas do governo cresceram tremendamente, tanto na França como na Inglaterra. A mecânica do Governo sobre as populações civis era, todavia, apenas parcialmente responsável por isto. Embora o rendimento normal de Luís IX (aquele que recebia dos domínios reais) fosse cerca do dobro dos de Filipe Augusto, as suas cruzadas eram extremamente caras. Foi um grande construtor de igrejas, o que implicava ter dinheiro. No entanto, apesar da crescente necessidade de recursos, nem a monarquia francesa nem a inglesa tentaram implementar novas formas de angariar dinheiro senão depois de 1270. Os rendimentos mais elevados eram o resultado de uma mais eficiente exploração dos direitos que o rei já possuía.

As maiores fontes de rendimento dos governantes franceses eram as ajudas de custo e os incidentes feudais que eles convertiam em dinheiro. Os legisladores reais começaram a afirmar que toda a terra na França era detida como feudo do rei, o que significava, em princípio, que toda a terra era tributável. Luís IX tomo a cruzada como um incidente feudal, cobrando os incidentes às cidades. Os reis também fiscalizavam a “tributação geral”, a obrigação dos homens livres em prestarem serviço em defesa da pátria numa situação de emergência militar, tomando uma taxa daqueles a quem não era pedido que servissem, pessoalmente, no Exército real.




Psalter of Saint Louis,1253-1270. Manuscrito século XIII – Bibliotheque Nat.,Coll.des Manuscripts, Paris, France


Fonte: São Luís - Biografia - Jacques Le Goff.


Professor Paulo Edmundo Vieira Marques



Beleza Iluminada





Tres Riches Heures – Um dos mais belos, e um dos mais notáveis manuscritos iluminados da Idade Média. Faz uma menção da propagação de criaturas do zodíaco em nosso corpo e como o afeta. De uma luminosidade a parte a ilustração nos fascina pelo seu poder de atrair a atenção de quem a vê. Belíssima




O Elmo Panela




O leme grande ou heaume, também chamado de leme panela, balde e barril. Elmo da Alta Idade Média surgiu no final do século XII, no contexto das cruzadas e permaneceu em uso até o século XIV. Eles foram usados por cavaleiros e infantaria pesada nos exércitos europeus entre 1220 e 1400 aproximadamente. No entanto eles foram utilizados amplamente pelos cavaleiros cristãos na Terceira Cruzada (1189-1192).





Vida, Cotidiano e Morte


estudos sobre o Oriente Antigo e a Idade Média


Livro excelente com vários artigos pertinentes ao cotidiano da Antiguidade, principalmente Oriente Antigo, e a Idade Média. Minha participação é no  capítulo 11, onde escrevo o artigo intitulado: Os Torneios Medievais: espetáculos e desafios na corte de René I. Leitura fácil e conteúdos qualificados. Aconselho. Boa Leitura.

Contatos para adquirir o livro: pauloedmarques@gmail.com




Fontes Históricas


Um das fontes, das muitas que usei, para a confecção do meu trabalho sobre os Torneios Medievais. Aqui o foco é para René d’Anjou o patrocinador do Livro que origina o meu estudo. O patrono da Provença. Grande entusiasta dos torneios medievais e das artes. O cavaleiro das artes.

Rei René I, o Bom, pintura do século XV





As Armas de René I d”Anjou o Bom

As cores do reino de d”Anjou



Professor Paulo Edmundo Vieira Marques


O Atelier das Iluminuras

O escritório e os utensílios do criador das iluminuras. Essas belas ilustrações medievais que nos encantam extremamente.

Local e utensílios onde se faziam estas maravilhas que vemos acima. Medievo maravilhoso.






Plebeus Coloridos



Na cultura popular, o plebeu medieval é muitas vezes separado da nobreza pelas cores cinza e marrom. Essa é uma escolha artística e inapta feita pelos diretores dos filmes. É claro que os cinzas e marrons naturais da lã de ovelhas, pode ter sido a cor mais comum das pessoas pobres da Idade Média, mas isso não é determinante para que se institua que o pobre do medievo não usasse roupas coloridas e vivas. Na verdade, a impressão é exatamente o oposto. O fato de que as pessoas pobres medievais também estão representadas na cultura popular como sujos, com lama e cinzas em seus rostos, é um estereótipo, com pouca ou nenhuma evidência para apoiar tal tese. Nas imagens atuais sobre o período medieval, tem sido sempre nos mostrado, na maioria das vezes, pessoas tristes, abaladas, maltrapilhas e de tão pobres não tinham onde morar e dormir. Mas isso não era uma regra como criam e nos repassam os atuais diretores de filmes. Até mesmo os mendigos, pelo menos, Flandres, Bélgica, procuravam vestir-se com roupas coloridas para serem notados e requisitarem esmolas. As imagens da iluminura abaixo do século XV sustenta que os plebeus medievais gostavam das cores em suas roupas.


Professor Paulo Edmundo Vieira Marques

Lindo Documentário da BBC Londres sobre o cotidiano medieval. Excelente.



Christina Uma Vida Medieval







Indagações


Uma indagação se impõe com referência à escolha do contexto temporal e temático que eu me dedico e estudo com tanto afinco. Qual o sentido em estudar o Ocidente medieval, uma sociedade tão longínqua no tempo e no espaço, a partir das terras americanas e, em particular, brasileiras? A Baixa Idade Média continuou caracterizada pelas estruturas fundamentais de dois séculos anteriores. Encontraram-se nela os mesmos grupos dominantes principais e os mesmos grupos dominados. A Igreja continuou sendo a instituição hegemônica, enquanto prosseguiu o desenvolvimento do mundo urbano e o reforço dos poderes monárquicos. A conquista e a colonização da América não é o resultado de um mundo novo, mas sim nascido de uma decomposição da Idade Média.


Muito além das transformações, das crises e dos obstáculos, é a sociedade feudal, prosseguindo a trajetória observada desde o início do segundo milênio, que empurra a Europa para o mar. É uma Europa ainda dominada por longo tempo pela lógica feudal, com seus protagonistas principais, a Igreja, a monarquia e a aristocracia (mercadores), que finca o pé na América, e não uma Europa saída transfigurada da crise do fim da Idade Média e agora portadora das luzes do Renascimento e do Humanismo. A América foi conquistada, não creditando aos seus autores a mentalidade americana, mas provavelmente aos seus valores e à lógica de seus comportamentos provenientes de um contexto medieval. Diante disto, complementando e ratificando a importância dos estudos medievais a partir de um olhar sul americano e brasileiro, sempre procurarei uma próxima pesquisa no intuito de solidificar os conhecimentos e estudos do medievo perante aos meus alunos e a sociedade em geral.

Professor Paulo Edmundo Vieira Marques











Ruas Medievais




Sublimes ruas medievais, morava-se em uma casa ou em uma simples gruta, ou até uma furna subterrânea ou castelos, era a célula da vida medieval. Era o abrigo seguro, um espaço de sociabilidade, um lugar de memória e de devoção. As ruelas e as suas casas encerradas no privado e inacessível, portanto, ao outro, era também a expressão da caridade, da caridade como nesses séculos ela era concebida, isto é: a esmola de um pão ou de um prato de sopa dados à porta, pois o mendigo que nela batia tanto podia ser Jesus como o Diabo, como sabê-lo? Ruas medievais. Ruas dos passantes, dos sobreviventes, das buscas, das perdas. Vivia-se pela procura da fé e do amigo. Evitava-se o pecado e o demônio, rogava-se a Jesus. Amava-se e odiava-se mas sobretudo almejava-se a esperança do paraíso.



A Morte Negra

O Triste Cotidiano do Medievo





A fome, as pragas e os desastres causados pelos humanos criaram então problemas sérios, mesmo antes de 1348. A “peste negra” de 1348-1349 foi, claramente, uma grande catástrofe, mas a população tinha atingido o seu auge medieval alguns anos antes de ela surgir, em 1250, em zonas da bacia do Mediterrâneo, e entre 1275 e 1310, na maior parte do norte. A famosa peste “bubônica” foi apenas uma das três epidemias que surgiram em 1348. Começo na China, tendo trazido de lá para Gênova através das pulgas que vinham nos navios e que se alojavam no pelo de ratos castanhos. Por volta do verão de 1348, já se tinha espalhado pela França central e, no final de 1349, pelo resto da Inglaterra e dos Países Baixos. Alastrou-se depois para o nordeste, para a Escandinávia e a Europa eslava. Apareciam pústulas nas virilhas ou nos sovacos. Se rebentassem, a morte era inevitável; se não a recuperação era possível. Uma epidemia pneumônica, espalhada pelo contato humano através dos pulmões, e uma epidemia septicêmica, eram invariável e rapidamente fatais.




Durante todo este ano (1348) e o seguinte, a mortalidade de homens e mulheres, dos novos mais ainda do que os velhos, em Paris e no reino de França, e também, diz-se em outras partes do mundo foi tão grande que era quase impossível enterrar os mortos. As pessoas ficavam doentes apenas dois ou três dias e depois morriam subitamente, como se estivessem de perfeita saúde. Aquele que estava bem num dia morria no seguinte e era levado para a sua sepultura. [...]Esta praga e doença veio da ymaginatione ou associação e contágio, pois se um homem são visitava um doente apenas raramente evitava o risco da morte. Em muitas cidades, os padres temerosos retiravam-se, deixando o exercício das suas funções para religiosos mais corajosos. Em muitos locais nem dois de entre vinte conseguiam sobreviver. A mortalidade era tão elevada no Hôtel-Dieu em Paris que, durante muito tempo, se levavam diariamente mais de 500 mortos, devotamente colocados em carros, vagões, para serem enterrados no cemitério dos Santos Inocentes. [...] Muitas aldeias do campo e muitas casas em boas cidades ficaram vazias e desertas. Muitas casas, incluindo mesmo algumas magníficas habitações, depressa caíram em ruínas.

Chronicle Jean de Venette, fatos ocorridos entre 1340 e 1368. França.



Em termos humanos, a peste foi um desastre. Poucas regiões foram poupadas, e a maioria delas perdeu entre um quatro a um terço da população. A mortalidade era mais alta nas cidades, muitas das quais perderam praticamente, metade de seus habitantes. Muitas aldeias inteiras deixaram, eventualmente, de existir, e muitas delas nõ 1348-1349, mas durante as várias pragas que se seguiram.

Isto porque a catástrofe não terminou em 1349. Houve pragas em 1358, 1361, outra em 1368-1369, que poderá ter sido mais grave nos Paíse Baixos do que a de 1348-1349, e uma outra, em 1374-1375, que foi particularmente grave na Inglaterra. Daí em diante, as pragas abrandaram um pouco, surgindo apenas uma outra em 1400, que afetou toda a Europa. Uma geração separou esta última de uma peste em 1438, mas entre essa e as de 1480 ocorreram epidemias frequentes. A Inglaterra sofreu, pelo menos, sete epidemias entre 1430 e 1480, a maioria das quais nos anos de 1430 e 1470, e apenas duas delas foram de outras pestes que não a bubônica. Lamentável cotidiano medieval.




Máscara contra a contaminação das epidemias medievais, usadas pelos médicos, padres e voluntários 


Professor Paulo Edmundo Vieira Marques







A Cota de Malha

Incômodo Eficaz

       


Manuscrito, século XIV, BNF, França.


A cota de malha medieval se chamava originalmente mail(malha) ou chain (cota) na Inglaterra e maille na França maillé significa "trançado". Somente no século XVIII o termo "cota de malha" se tornou comum. Também conhecido na Europa como Hauberk, palavra dos francos, que significava "proteção do coração e pescoço"


A malha é construída a partir de elos de arame circulares, feitos em torno de um cilindro. Quando prontos, os elos são soldados ou fixos  com rebites, formando uma túnica. O resultado é uma armadura flexível, mas incômoda e pesada. Chega a pesar entre 14 e 20 Kg. Eficaz contra a maioria das armas de corte, vulneráveis a bestas e armas pesadas como lanças e massas e martelos maiores. Em virtude disso, os guerreiros, contra golpes mais intensos, a usavam sobre uma armadura acolchoada, feita de lã e outros materiais que ofereciam mais resistência contra impactos.


O autor romano Varro atribui a invenção da cota aos celtas. O exemplar mais antigo existente foi encontrado em Ciumeşti na Romênia moderna e é datado do século V a.C, entre 400 e 450. Exércitos romanos adotaram tecnologia semelhante de pois de encontrá-lo. A cota de malha foi amplamente usada durante a primeira metade do último milênio, estando presente em toda a Europa e Ásia, mas foi no século XII d.C. que atingiu o ápice. Cobrindo todo o corpo do cavaleiro, do guerreiro, a túnica básica  de malha era associada a peças individuais para os braços, as pernas e a cabeça, de modo a oferecer uma proteção mais completa. 


A cota de malha encontrada nos labirintos da Catedral de Praga, que data do século XII, é um dos primeiros exemplares encontrados intactos na Europa Central e que alguns historiadores alegam ter pertencido a São Venceslau, mas sem maiores análises para comprovação.


Os cavaleiros não usaram essa armadura, cota de malha, por muito tempo. Placas de metal forma sendo aplicadas e adicionadas à malha e as armaduras se tornarem cada vez mais sofisticadas, a partir do final do século XIV. Já os soldados de infantaria vestiram cota de malha até o fim da Idade Média. No Japão , uma forma de cota de malha chamada kusari Katabira (jaqueta cadeia) era comumente usado pelos samurais. Acota de malha foi uma peça de defesa e ainda hoje continua a atrair a atenção de todos. Sua eficácia foi notável, mas usá-la requeria uma certa paciência e habilidade de manuseio. Salvou inúmeras vidas na Idade Média e foi, sem dúvida, segundo dito popular, a segunda pele dos anjos que forneciam aos cavaleiros. 

      



                                                          Cavaleiros com cotas de malha, Cruzadas, manuscrito século XIII




Professor Paulo Edmundo Vieira Marques

O Instigante Frederico I Barba Roxa – Uma Biografia e Imagens.



Frederico Barba Roxa, manuscrito século XII, autor desconhecido


Escrevo essa pequena biografia para registrar um dos maiores cavaleiros medievais. Pouco estudado mas uma vida cheia de indagações que nos levam a pesquisas 

 e perspectivas futuras a respeito do imperador Frederico.

Frederico I da Germânia nascido em Waiblingen ou Ravensburg, 1122 e morto em Cilícia, 10 de junho de 1190), também conhecido por Frederico Barbaroxa, Frederico Barbarossa (ou simplesmente o Barbarossa) e sob a forma aportuguesada de Frederico Barba-Ruiva. Foi imperador do Sacro Império Romano-Germânico (1152-1190), rei da Itália (1155-1190). O nome “Barbaroxa”, forma aportuguesada do italiano “barbarossa” (isto é, barba ruiva) popularizou-se apesar de seu evidente despropósito, pois o significado original é “barba vermelha”, devido à longa barba ruiva que ele usava.


Grande cavaleiro, ganhador de vários torneios medievais. Em razão destas vitórias, manteve sequestrado vários oponentes e ganhou destes dezenas de cavalos e armaduras. Um dos melhores lanceiros descritos em manuscritos nas justas, luta somente com um oponente, pois possuía uma técnica singular de levantar e direcionar o bastão-lança contra o adversário somente quando estava a poucos metros do mesmo. Aspecto inigualável durante a Idade Média em torneios. Usava, sempre, simultaneamente três espadas e três adagas que se entrelaçava junto a sua cintura. Armas brancas pesadíssimas, mas que segundo alguns não perturbava o imperador em momento nenhum.


Pertencente a casa dos Hohenstaufen, filho de Felipe, O Zarolho, com a morte de seu pai, herdou o ducado da Suábia, e foi eleito imperador pela Dieta de Franco-Forte com a morte de seu tio, Conrado III em 1152. Coroado em Roma em 1155 pelo Papa Adriano IV. Todo o seu reinado seria preenchido por uma série de batalhas para lá dos Alpes, onde chocou-se com a feroz resistência das cidades lombardas, principalmente Milão, apoiadas pelo papado. O imperador entrou rapidamente em conflito com a Santa Sé em 1159, contra o Papa Alexandre III, eleito pelos cardeais e reconhecido na Itália, França e Inglaterra, suscitou o antipapa Vitor IV, que fez reconhecer no sínodo de Pávia, os conflitos foram enormes e sangrentos em virtude da atitude anti Roma adotada pelo imperador Barba Roxa. Frederico foi finalmente vencido em Legnano, em 1176, pelas tropas da Liga Lombarda e teve de assinas a Paz DE Veneza, em 1177, humilhando-se prosternou-se aos pés do Papa, que apenas por este preço lhe concedeu o beijo da paz. As pessoas que conheciam Barba Roxa, jurariam que ele nunca faria isto. A rudeza do imperador e o seu orgulho curvaram-se diante do pontífice. Depois pela Paz de Constança, 1183, reconheceu a independência, de fato, das cidades lombardas.


Chefiou a III Cruzada com Filipe Augusto e Ricardo Coração de Leão, em 1189, realmente um trio de ferro, grandes cavaleiros e grande carisma junto as suas tropas. Obteve alguns êxitos sobre os turcos na Ásia Menor, mas o seu exército foi dizimado pelas doenças e esse grande cavaleiro, depois de enfrentar as mais terríveis e sangrentas batalhas, teve o infortúnio de morrer afogado nas águas do rio que hoje se chama Tarsus Xayi.



Frederico I Barba Roxa e o seu filho numa miniatura da Crónica dos Guelfos (século XIII).

Obs. Esse artigo foi escrito em homenagem à Carlos Ribeiro Mendes, um entusiasta pelas Biografias. Um abraço amigo.

Paulo Edmundo Vieira Marques


Os Pontiagudos Alongados – Sapatos Medievais


Os sapatos com os dedos longos e extremamente torneados começaram a ser usados no início do século XII na Europa Ocidental. As origens desses sapatos foram, por fatos não muito comprovados e mais por tradição, colocado nos pés do conde d’Anjou, que tinha a necessidade de cobrir os dito cujos em virtude de deformidades enormes. Acredita-se que seriam enormes joanetes ou dedos disformes e grandes, tanto que o chamavam de o nobre pato. Outra tradição coloca a origem de tal sapato vinda dos árabes, Oriente Próximo, e que a mesma teria existido desde os sumérios, mas também sem possibilidades de comprovação histórica. Há certos manuscritos, século XIII, que relatam cruzados citarem tais calçados como sendo cômodos e que levariam tal comodidade aos seus reinos e feudos. Esta última análise nos parece mais convincente, pois há relatos de 12 cruzados transcritos em pergaminhos, encontrados em uma embarcação náufraga, que foi encontrada muito bem conservada, no mar Mediterrâneo, que nos diz que os mesmos, os cavaleiros, levariam vários pares para as suas esposas e filhos.


Uma série de obras sobre a história do figurino medieval refere este tipo de calçado de “pigases”, que parecem encontrar suas origens na menção de pigaciæ e pigatiæ em Ordericus Vitalis, ou “pigache” em francês. Estes referidos sapatos com pontas longas começaram a aparecer no início do século XII. No entanto no decorrer dos anos suas pontas foram crescendo exageradamente, crendo que mais longos os sapatos mais elegantes e sofisticados eram eles. Algumas pontas atingiam mais da metade do calçado, às vezes, atingindo mais de 20 cm. Os sapatos mais longos eram “recheados” com acreditem, musgo, cabelo, lã e até farinha de trigo.


As variações dos calçados em suas extremidades tinham como adornos: rabo de peixe, serpente, escorpião e outras. Mas a maioria usava os calçados sem maiores extravagâncias. Acho que os exageros ocorriam em festas, grifo meu. Esse estilo, das pontas longas, permaneceu popular ainda no século XIII e XIV, mas nunca desapareceu completamente ainda no século XV, mantendo um padrão mais sóbrio e com tecidos de pelúcia, veludo entre outros. Os sapatos com estilos pontiagudos foram em sua maioria usados pela aristocracia, sendo que as pessoas comuns usavam sapatos com pontas arredondadas, mas há certas controvérsias entre os historiadores. As pesquisas continuam e certamente aparecerão novos fatos e fontes comprovando outra tese, esse é o trabalho do historiador.


Paulo Edmundo Vieira Marques

Manuscritos Medievais

Vídeo muito interessante. Nos mostra como eram feitos os manuscritos medievais. Desde o seu início mais rudimentar até a arte final dos artistas iluminadores e a sua excepcional sensibilidade. Vale a pena ser visto.



Fazendo um Manuscrito Medieval



 

Os Iluminadores


Artista de extrema importância na Idade Média, o artista incansável, monges, laicos, gente de extrema vontade e talento. Fizeram-nos conhecer esse maravilhoso mundo medieval. Suas cores, suas visões, seus retratos, suas iluminuras, suas letras, sua sensibilidade. Grandes artistas. Soberanos no seu dever. Podia ou não ser um copista que iluminava os manuscritos, os livros das horas, os tratados, a heráldica, enfim abrilhantavam o mundo medieval com cores e talento. Manuseavam os manuscritos desde a concepção do desenho até a aplicação da cor. Dada a complexidade da ornamentação de uma letra inicial das páginas dos manuscritos, havia iluminadores especializados que se limitavam a executar esta tarefa. ou seja, iniciar o manuscrito e as suas páginas com as suas letras maravilhosas e luminosas. Eram verdadeiros artesãos da luz, pois iluminura deriva do verbo illuminare, por sua vez derivado de lumen, luz, reporta-se às propriedades luminosas do ouro e da prata assim como ao caráter de clarificação que assume face ao texto. Obrigado iluminadores, luzes do medievo.


    Iluminated, Manuscript Séc. XV. Desc. Pag. 141 m. BNF        




                         

As Ordens Monástico Militares




Estas ordens, nascidas na Terra Santa (Templária, Teutônica, Hospitalária, etc.) foram a realização do sonho medieval de unir a fé e a guerra justa. Mas, pela sua própria natureza, provocaram uma ruptura grave no seio da Cavalaria secular. Ao retirar do século Cavaleiros de alta envergadura espiritual e temporal, muita vezes originários de grandes linhagens, e votando-os ao celibato, estas ordens quebraram a unidade espiritual e física da Cavalaria secular, privando-a dos seus elementos mais dinâmicos susceptíveis de a manter, no seio do século, num quadro estritamente cristão. Sem as suas referências a Cavalaria mundaniza-se (Séculos XIX-XV) e preocupa-se menos com a fé e o respeito pelas leis evangélicas: ao mesmo tempo que a fé, forte na Idade Média, começa a retirar-se das consciências, a partir do século XV. A dessacralização do poder temporal e a Reforma, que quebra a unidade da Cristandade, não fizeram mais do que agravar seu estado de coisas: daí para frente o Cavaleiro, o guerreiro em geral, forjam uma moral militar que já não tem a defesa de Deus e da Igreja como fim exclusivo, mas de um estado e do seu príncipe, o qual é, em muitos casos, o chefe de uma espiritualidade singular, um reino, um príncipe, uma fé.

Nota-se outra ruptura: se outrora o Cavaleiro foi o homem de todas as causas justas, membro de uma confraria transnacional, o Cavaleiro é um agente executivo votado de corpo e alma à sua ordem, à qual deve fidelidade. O exemplo mais completo é o Templário que deve ser, como estipula um documento do século XIII, “paladino do bem e obediente às regras, casas e interesses da Santa Ordem” antes de o ser para com os “poderes exteriores à casa e outros”, inclusive o Papado.

A Cruzada é a concretização da teologia cristã da guerra, mas também da dupla vontade da Igreja escapar à dominação da nobreza laico-guerreira e de reforçar o centralismo pontificial visando o dominium mundi em detrimento dos poderes seculares. No que diz respeito a Cavalaria, a Cruzada permite resolver a contradição que atormentava muitos Cavaleiros, quanto à conciliação entre o emprego da força guerreira e a observância dos Evangelhos. Daí em diante, depois de Urbano II e São Bernardo, o Cavaleiro secular podia unir, sem complexo, a via da espada à da fé; união que se tornou mesmo um dever para todo o verdadeiro Cavaleiro, fazendo dele um mile Christ. Mas se a cruzada assegurava uma continuidade da via cavaleiresca, também introduziu uma série de conseqüências para A Cavalaria.

A primeira foi a ruptura entre o espiritual e o temporal, grave por tocar uma instituição sacralizada, é certo mas que ficava, apesar de tudo, no domínio espiritual. A segunda consequência, mais contingente mas não menos importante, prende-se com as rivalidades que a Cruzada gerou entre os Cavaleiros, sobretudo entre os de altas linhagens, para a conquista e a defesa das conquistas territoriais efetuadas.

Em muitas ocasiões as finalidades iniciais das Cruzadas eclipsaram em proveito de interesses temporais, mesmo no sei das ordens, exacerbando as paixões políticas entre os condados, ducados, senhorias, etc. Não eram raras as lutas armadas entre senhores, que não hesitavam em aliar-se ao infiel logo que as cirscunstâncias o exigiam. A terceira consequência é que a Cruzada ocasionou uma perda importante da substância humana da cavalaria, uma vez que se avalia em mais de um terço os Cavaleiros mortos na Terra Santa, privando a cavalaria dos seus elementos mais eficazes. Esta sangria explica em parte o esgotamento sociológico da Cavalaria, tornando-a incapaz de se opor às armadilhas dos poderes seculares e a orientação negativa que tomou a partir do século XIV.



Paulo Edmundo Vieira Marques



         Jogos Medievais. A Péla, um dos precursores do tênis atual.


Esta Iluminura que consta em manuscrito de 1450, mostra como o jogo da péla com a bola tradicional jogado nos clautros monásticos. Fonte BNF>


Os séculos XIII e XIV não são ainda os grandes séculos do jogo da péla que não vê um desenvolvimento muito marcante antes do final da Idade Média. Nascido no claustro, sem dúvida como um dos divertimentos concedidos a título anual e excepcional aos noviços jovens ou aos meninos do coro, o jogo da péla consiste em lançar-se uma bola chamada “éteuf”. A particularidade é poder aproveitar-se dos ressaltos da “bola” contra o muro do santuário ou no teto da galeria do claustro. No século XIII, o jogo da péla saiu do claustro e começou a sua ascensão rumo à notoriedade. Sabe-se que em 1292 havia treze artesãos parisienses que ganhavam a vida a fabricar “eteufs”. O que demonstra o favoritismo de que o jogo beneficiava todos os meios. Contudo, é só na segunda metade do século XIV que começam a surgir terrenos especialmente adaptados à ptrática o que, tanto pelas suas dimensões como pela arquitetura que não deixa de lembrar o claustro, indica um jogo em vias de codificação. As regras exatas continuam, porém, desconhecidas até hoje.

No entanto o jogo, praticado com as mãos nuas ou eventualmente enluvadas, exige uma entrega física total e sem dúvida uma grande rapides na apreciação da trajetória da “bola” de maneira a poder reenviá-la habilmente ao oponente. Foi sem dúvida por tê-la jogafo sem moderação que o rei Luis X, num dia de 1316, passou desta para melhor.

A partir do jogo da péla certas regras foram incorporadas, raquetes de colher de pau de cozinha, foram introduzidas, telas feitas com arames etc., originando o nosso atua jogo de tênis. Também as quadras foram determinadas com medidas mais aproximadas as atuais no século XVIII.

Obs. Essa pesquisa é uma homenagem ao meu filho Bruno Saclzilli Vieira Marques, professor de Educação Física dos mais qualificados, amante dos esportes, estudioso como eu dos jogos antigos e precursores.

Posteriormente analisarei outros esportes que tiveram seu início na Idade Média e posteriormente tiveram grande influência ainda hoje em nosso meio, entre eles podemos destacar os jogos de bolinhas de gude que tiveram seu início ainda no século X, com os árabes que através da península ibérica trouxe-nos vários. Destaca-se também o de xadrez.


Paulo Edmundo Vieira Marques




A fabricação de uma armadura medieval





Os Torneios Medievais - Um Esboço do Meu Livro

O esboço completo poder ser visualizado no meu blog:  pvmarques.wordpress.com






Resumo

Nos dias de hoje, nebulosos, agitados, estressantes, as luzes e cores da ostentação sempre ofereceram uma fuga da realidade mundana. A vida medieval era geralmente mais enfadonha, mais cinzenta e mais dura do que a nossa, e suas grandes ocasiões distinguiam-se ainda mais fortemente diante de tal cenário. Imagine um mundo onde as cores vivas eram um luxo, onde a música era ouvida somente nas feiras, nas cortes e em grandes aglomerações do mesmo tipo, onde os entretenimentos podiam ser vistos em raros intervalos e, por conseguinte, somente nas cidades e nos vilarejos, um mundo onde, após o anoitecer, a escuridão era quebrada por alguns tênues clarões. Hoje, quando nossos sentidos são bombardeados por uma fartura de riquezas, ainda conseguimos reagir à pompa de uma grande ocasião. O efeito sobre um espectador medieval de tal desfile suntuoso era muitas vezes mais intenso.

Os torneios estavam no centro de grande parte da ostentação medieval, e é esta imagem que hoje permanece conosco. Eles combinavam o espetacular com toda a excitação de um combate físico hábil e perigoso e a resultante veneração dos heróis de suas estrelas. Somado a isso, havia um elemento de idealismo, pois o torneio era fundamental ao mundo da cavalaria, e as damas que assistiam das arquibancadas estavam lá tanto para inspirar como para admirar seus cavaleiros, e para fortalecer lhes a coragem com sua presença. Mas diante de tais indagações e constatações no presente pergunta-se; como um combate simulado tornou-se um espetáculo? Quando foi criada a ideia de um torneio? Havia regras e formas estabelecidas? Como foi difundido tal prática? O que sabemos sobre os detalhes da técnica e armadura? As respostas são surpreendentemente difíceis de descobrir e foi somente nos últimos anos, com o renascimento do interesse na ética e realidade da cavalaria que os estudiosos começaram a responder a algumas dessas questões, como que seguindo um conselho de Le Goff que diz:

“Com grandes esforços de métodos e respeitáveis esforços de imaginação, podemos, entretanto, fazer com que as lacunas falem. É uma das tarefas dos medievalistas que virão fazer falar os silêncios atuais da Idade Média”.

Este trabalho usa esta pesquisa recente para exibir um quadro coerente do torneio medieval, mas muitas das conclusões precisam inevitavelmente ser provisórias.
Os historiadores medievais ignoravam os torneios completamente, ou anotavam somente os detalhes mais breves. Deste modo se tem que procurar os menores fragmentos de evidência e reunir o que pudermos na bibliografia especializada, nas crônicas medievais, nos livros específicos como o Livro dos Torneios de René D’Anjou, do século XV, foco deste trabalho, de maneira ampla para ilustrar e dirimir dúvidas e conceitos a respeito do tema, como se exemplifica na ilustração abaixo:

Outra fonte usada (com grande cautela e como último recurso) foram os romances de cavalaria. A pesquisa nas bibliotecas de todo o mundo (via internet) a respeito do assunto proporcionou excelentes resultados, no que tange as variadas opiniões a respeito de interessante abordagem histórica. Diante das dificuldades, o sentimento é de escrever uma história de futebol a partir das páginas de notícias de jornais atuais: as reportagens sobre esportes da Idade Média (se é que existiram) em geral desapareceram.

Definiu-se o termo “torneio” para descrever a ocasião toda, simplesmente porque é familiar ao leitor moderno como um termo geral. A alternativa comum nas crônicas inglesas e francesas no período de 1100-1400 é Hastiludium .

Já as “justas” eram especificamente combates simples, um contra um, embora o competidor de justa possa pertencer a uma equipe; no período de até 1400, elas eram geralmente disputadas sem uma barreira central para separar os combatentes. A arena era a área anexa na qual os torneios ou justa eram disputados; no período inicial do torneio, as fronteiras eram muito amplas, e nem sempre claramente definidas, mas do século XIII em diante um cercado fortificado parece ter sido estabelecido como padrão. Mas exploraremos as implicações detalhadas destes termos mais adiante nos capítulos pertinentes ao assunto.


Professor Paulo Edmundo Vieira Marques


A Pia Batismal



É na Idade Média que a igreja institui a pia de batismo. A pia batismal é um instrumento fundamental da liturgia, pois ocupa o lugar central numa das mais importantes práticas do cristianismo, é a fonte batismal, que contém a água destinada ao batismo, e é usada nas igrejas e batistérios em substituição ou alternativa à tina. Com efeito, na época paleocristã a iniciação ao cristianismo efetua-se na idade adulta, recordando o batismo de Cristo no Jordão, e por imersão numa tina. O uso da pia batismal consolida-se, principalmente, a partir da Alta Idade Média, quando o batismo passa a ser também aplicado às crianças, e a sua administração já se não faz só por imersão, mas também por infusão. A forma desta estrutura, que na origem se liga à das tinas paleocristãs, é habitualmente circular ou poligonal, frequentemente de oito lados, em referência aos padres da Igreja, no binómio Batismo igual a Renascimento, ao octava dies, isto é, no oitavo dia fora do ciclo da semana, e, portanto fora do tempo terreno limitado, no qual teria ocorrido a Ressurreição de Cristo.


Paulo Edmundo Vieira Marques





O Simbolismo do Armamento do Cavaleiro Medieval



Armadura flamenga, Flandres, século XIV. Armadura de combate e de exibição em torneios.


O Elmo: esperança, inteligência, pudor.


A couraça:prudência, piedade, proteção contra o vício e o erro.


As luvas: justiça, ciência, discernimento, honra.


O Escudo: fé, conselho, proteção contra o orgulho, o desregramento e a heresia


A lança: caridade, sabedoria, justa verdade.


As esporas: temperança, temor a Deus, zelo pela salvação, lembra ao cavaleiro os seus deveres, impedem-no de desleixar na imobilidade.


A espada: força, Palavra Divina, bravura, poder. Símbolo de condição nobre e militar, ordenadora da criação, mantenedora da justiça, da paz.

 

                                                Armadura milanês do século XV. As melhores da Europa. Detalhe das costas do cavaleiro

Paulo Edmundo Vieira Marques

   

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